Opinião | A Europa já não tem certezas sobre Washington
Durante grande parte do pós-guerra, a estabilidade do Ocidente assentou numa convicção raramente verbalizada, mas profundamente enraizada nas capitais europeias: independentemente das crises políticas internas americanas, os Estados Unidos continuariam comprometidos com a defesa da ordem internacional construída após a II Guerra Mundial. Governos mudavam, presidentes passavam, conflitos surgiam, recessões abalavam mercados, mas a ideia de continuidade permanecia intacta. Pela primeira vez em mais de sete décadas, essa certeza começou silenciosamente a desaparecer.
Nos bastidores diplomáticos europeus, uma hipótese que durante muito tempo pareceu impensável deixou de ser tratada como mera abstração académica: a possibilidade de os Estados Unidos continuarem a ser a maior potência do planeta sem permanecerem plenamente dispostos — ou politicamente capazes — de sustentar sozinhos a estabilidade do Ocidente.
Essa mudança ainda não produziu rutura formal alguma. Não existe anúncio oficial, tratado revogado ou declaração histórica que marque claramente o início desta nova fase. Como acontece nas grandes inflexões internacionais, o processo começou através de sinais dispersos, hesitações sucessivas e desgaste gradual de confiança.
A sucessão de crises dos últimos anos acelerou essa perceção de forma profunda. A guerra na Ucrânia expôs limitações industriais e militares que o Ocidente preferia ignorar. A rivalidade crescente entre Estados Unidos e China demonstrou que a globalização deixou de funcionar como mecanismo automático de equilíbrio internacional. A escalada no Médio Oriente ampliou a sensação de fragmentação estratégica. Ao mesmo tempo, a radicalização política americana começou a afetar diretamente a previsibilidade da política externa de Washington.
O problema não reside num eventual declínio clássico dos Estados Unidos. Militarmente, tecnologicamente e financeiramente, os americanos continuam incomparavelmente mais poderosos do que qualquer outra potência isolada. O que........
