Gaza e o desgaste moral do Ocidente
Quando ativistas europeus surgiram algemados após a interceção israelita da flotilha humanitária que tentava aproximar-se de Gaza, o impacto político das imagens foi imediato em várias capitais europeias. Não apenas pelo incidente diplomático em si, mas porque aquele episódio expôs, de forma particularmente desconfortável para o Ocidente, uma realidade cada vez mais difícil de ignorar desde o início da guerra: a de que o conflito deixou há muito de ser apenas uma questão regional do Médio Oriente e passou a transformar-se num teste decisivo à credibilidade moral e política das democracias ocidentais.
Pela primeira vez em muitos meses, cidadãos europeus surgiam expostos, ainda que momentaneamente, à mesma lógica de vulnerabilidade e impotência que passou a marcar o quotidiano em Gaza. O episódio condensou simbolicamente uma inquietação crescente dentro da Europa, onde aumenta o receio de que o custo internacional da guerra já ultrapasse largamente os limites da dimensão militar e humanitária do conflito.
A verdadeira dimensão geopolítica da guerra talvez resida precisamente nesse ponto. Gaza transformou-se num espelho desconfortável das contradições da ordem internacional construída pelos Estados Unidos e pela Europa após a II Guerra Mundial.
Durante décadas, o poder ocidental não assentou apenas na superioridade militar, tecnológica ou financeira, mas sobretudo na capacidade de apresentar os seus valores políticos como referências universais de legitimidade internacional. Direitos humanos, legalidade multilateral, proteção de civis, defesa da democracia liberal e respeito pelo direito internacional converteram-se em instrumentos centrais de influência global. Foi essa autoridade moral que permitiu ao Ocidente condenar invasões, impor sanções e definir, em larga medida, os parâmetros éticos da política internacional contemporânea.
Existem momentos históricos em que a distância entre os........
