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In Coena Domini. Crónica de Manuel Fúria

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friday

​Disse que Deus já não era paisagem. Era falso. Ou, pelo menos, falso nesta altura do ano. Na Primavera, Deus reaparece nos insectos, nos sapos, no cheiro da terra, nos gestos caseiros que repetimos sem pensar e que, súbito, começam a pesar como sinais de uma ordem maior. 

Lembro-me das Páscoas em casa dos meus avós. Havia Primavera em toda a parte. Os cachos de lilases, carregados de flor, tomando conta de tudo, o bafo fétido do galinheiro, o sol enfim livre do Inverno, a cadela áspera a ladrar e a pedir festas, os morangos naquele rectângulo térreo, as sardinheiras um pouco por todo o lado. 

Quem um dia decidiu o calendário litúrgico terá, certamente, tomado isto em conta. Quem garante que a questão fundamental não eram as ruas da nossa pequena cidade, prontas para os skates e para as bicicletas, para as bolas de basquetebol? Quem, com absoluta certeza, poderá afirmar que a prontidão dos passeios, essa impressão de mundo lavado e disponível, não tivera sido pensada nesse momento? Talvez a liturgia também tenha obedecido a essas coisas simples que fazem um rapaz ter vontade de sair de casa.

A luz de Abril e o som da estereofonia confundiam-se. Eram a mesma coisa. Ainda hoje, quando vejo letreiros a dizer “Luz e Som”, penso nisso. Em pequenos Pentecostes domésticos, vividos à janela, com persianas abertas e altifalantes a funcionar. Ligar a aparelhagem era dispor o espaço. Dar à casa uma ordem invisível. A infância é essa longa incapacidade de perceber que certos movimentos sem importância eram, afinal, ritos. Deus manifestava-se assim e eu não fazia a mínima ideia. Talvez viver fosse precisamente isso: não fazer a mínima ideia.

É disso que se trata, por exemplo, quando se desliza na tábua de um skate: não fazer a mínima ideia. Há momentos em que somos a medida exacta daquilo que estamos a fazer. Como receber a bola e correr na direcção da baliza contrária, preparar os tapetes de flores e serradura para receber o Compasso, ir à pesca ou acompanhar a Missa com a precisão do corpo. O corpo tem uma sabedoria anterior às explicações.

A minha mãe era nova e eu não sabia. Ao contrário de mim, sempre com pressa de crescer, sempre com vontade de ser outra coisa qualquer que nunca cheguei exactamente a ser. Tinha o rosto limpo, o cabelo dourado, sapatos de bailarina com um laço na ponta, uma mala verde a tiracolo e o passo decidido em direcção ao que era preciso fazer. As mães foram raparigas antes de serem mães, e só damos por isso depois. São assim: pegam no útil e, sem uma palavra, dão-lhe uma espécie de esplendor. Revelam, no cumprimento do quotidiano, o lastro de alguma coisa superior.

Há, na quietude mediática da Páscoa, qualquer coisa que a torna mais verdadeira. Mais reservada. Mais incorrupta. Os ovos de chocolate que sabem a sabão, os coelhos vagamente sinistros em papel de prata, as amêndoas disto e daquilo, tudo isso não atrapalha grande coisa. É folclore de supermercado. Um programa lateral condenado à tristeza própria das coisas sem centro.

Ainda ontem era Quinta-feira Santa. Um dia branco, tenso, da limpidez e da sombra das coisas. As flores, a luz e o rio inclinam-se ligeiramente para diante, como se pressentissem a escuridão próxima. Como se a beleza, inquieta, já o soubesse. 

Acordei com os lilases, as sementes de salgueiro a flutuar, um melro à procura do que comer, as vespas que deixaram de me assustar. O meu pai ligou a aparelhagem. Passo a passo. Antigo e exacto. Como quem veste o amito, a alva, o cíngulo, o manípulo, a estola branca, a casula branca. 

Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.

Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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