In Coena Domini. Crónica de Manuel Fúria
Disse que Deus já não era paisagem. Era falso. Ou, pelo menos, falso nesta altura do ano. Na Primavera, Deus reaparece nos insectos, nos sapos, no cheiro da terra, nos gestos caseiros que repetimos sem pensar e que, súbito, começam a pesar como sinais de uma ordem maior.
Lembro-me das Páscoas em casa dos meus avós. Havia Primavera em toda a parte. Os cachos de lilases, carregados de flor, tomando conta de tudo, o bafo fétido do galinheiro, o sol enfim livre do Inverno, a cadela áspera a ladrar e a pedir festas, os morangos naquele rectângulo térreo, as sardinheiras um pouco por todo o lado.
Quem um dia decidiu o calendário litúrgico terá, certamente, tomado isto em conta. Quem garante que a questão fundamental não eram as ruas da nossa pequena cidade, prontas para os skates e para as bicicletas, para as bolas de basquetebol? Quem, com absoluta certeza, poderá afirmar que a prontidão dos passeios, essa impressão de mundo........
