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Vende-se prédio. Idosos incluídos. Opinião de Luís Leite

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25.10.2026

O prédio tem quatro andares, dois apartamentos por andar e nenhum elevador. Fica no Barreiro, do lado de lá do rio, onde Lisboa ainda se vê ao longe. Quem procura casa em Portugal sabe que o mercado é um pântano. Os crocodilos sorriem todos. A vendedora da imobiliária sobe comigo as escadas e explica: “O prédio foi há pouco tempo dividido em frações. Só dois apartamentos estão vazios: T1, à volta de 200 mil euros, a necessitar de obras. Os outros também se vendem, à volta de 100 mil. Mas têm gente dentro.” Idosos, com contratos de arrendamento vitalícios anteriores a 1990. Pagam 80 euros por mês.

– São todos muito simpáticos, os senhores. Muito faladores.

Há idosos a fazer tudo para travar vendas, até veneno nas escadas deitaram. Não os condeno, como não condeno o proprietário: €80 mensais não sustentam obras, telhados ou canalização num prédio antigo. O desejo de vender é legítimo. Mas expõe a efemeridade e a amoralidade do mercado: para um investidor, comprar ali é pagar hoje por um teto cuja posse real depende do funeral de alguém. Um investimento literal na morte.

Em Moçambique diz-se que os mortos não vão embora. Ficam. Ficam na terra onde estão enterrados, perto da casa onde viveram, à espera de que os vivos se lembrem deles. Um antepassado que não sabe onde é a sua casa anda perdido. E um espírito perdido, avisam os mais velhos, não fica quieto.

Depois........

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