Contra bastões, balões! Opinião de Luís Leite
São quase cinco da manhã e não fui dormir. Escrevo de fresco, com o coração aos pulos, enquanto vejo a democracia defender-se com espadas de balões. Não é metáfora, na noite de Halloween, distribuíram-nas às crianças do Rossio, entre mais de setenta tendas.
O que começou como o grito desesperado de uma geração empurrada para fora da sua própria cidade transformou-se numa luta direta pelo próprio coração da nossa democracia.
Quando o direito básico a uma casa é esmagado pela especulação e a resposta das autoridades à dor do povo passa pela força bruta, pelas cargas policiais e pela desmontagem à força de acampadas históricas, como no Rossio ou na Praça D. João I, algo de muito mais profundo se parte. Formar um cordão humano com o próprio corpo não é um ato de provocação, é um ato supremo de preservação cívica.
Em 1974, o bravo povo português colocou cravos nos canos dos fuzis para declarar que o medo tinha acabado e que a praça pública pertencia à liberdade. Hoje, quando o poder tenta enclausurar essa mesma liberdade sob o pretexto da “ordem”, da dita “lei”, os manifestantes no Porto e em Lisboa não estão apenas a exigir habitação. Estão a defender o direito de existir, de erguer a voz e de protestar sem pedir licença a quem........
