Ouviam-se grilos no Rossio. Depois chegaram os bastões
O silêncio de quem exige uma casa foi interrompido por cargas policiais em Lisboa e no Porto. O Governo não pode sacudir as responsabilidades políticas para cima da PSP. Quando a força substitui o diálogo, o Estado de Direito tem razões para se inquietar. E os cidadãos, para se indignarem.
Ouviam-se grilos no Rossio. A frase não é minha, mas gostaria que fosse, mas não estava lá para ouvi-los. Disse-a a deputada Isabel Mendes Lopes, do Livre, para descrever o ambiente na Praça D. Pedro IV, na madrugada deste domingo, 1 de novembro. Não havia tumultos, pelo menos naquele momento. Nem hordas revolucionárias dispostas a invadir São Bento, partir montras ou saquear lojas. Aliás, o Rossio é um símbolo da Lisboa transformada pela especulação imobiliária, onde até o comércio tradicional vai cedendo lugar a estabelecimentos destinados aos turistas. Havia pessoas, tendas e uma reivindicação elementar: o direito a uma casa. Depois chegaram os escudos, os cães, os bastões e a ordem de dispersar. Os grilos fugiram. Não consta que tenham sido identificados ou detidos por desobediência civil. Chaplin teria material para uma sequela de Tempos Modernos. Desta vez, a máquina engolia manifestantes.
Estou profundamente indignado com as imagens. Não apenas com as imagens das intervenções policiais no Rossio e na Praça D. João I, no Porto, mas com a resposta política a uma crise que afeta milhares de portugueses. O Governo de Luís Montenegro parece mais empenhado, nestes episódios, em retirar tendas do que em ouvir quem reclama soluções. Como se dispersar manifestantes baixasse as rendas. Como se a demonstração de força compensasse a falta de respostas políticas.
A operação deixou 13 manifestantes detidos, segundo a PSP, e dezenas de feridos entre civis e agentes, de acordo com balanços provisórios. A polícia refere resistência ativa e arremesso de objetos; os organizadores denunciam bastonadas e utilização desproporcionada da força. No Porto, um agente à civil exibiu uma arma de fogo, que a PSP justificou como meio dissuasor. Diria antes, assustador. E impossível não recordar, salvaguardando as enormes diferenças........
