CR7, a Seleção de Portugal, a positividade tóxica e a máquina de fazer dinheiro
O Portugal-Colômbia de ontem de madrugada não foi exatamente futebol. Foi uma espécie de vigília. Uma vigília televisiva, tropical, sonolenta, patrocinada por marcas globais, positivismo de conferência de imprensa e aquela esperança portuguesa, sempre muito nossa, muito sebastiânica, de que a bola, se circular devagarinho durante tempo suficiente, talvez acabe por entrar sozinha na baliza, ou, vá lá, com um toquezinho providencial do CR7. Portugal empatou, passou, sobreviveu, respirou, sorriu para a fotografia — mas com um sorriso amarelo, quase a condizer com o equipamento da Colômbia — e carimbou o passaporte para os dezasseis avos-de-final. Só que passou como passam alguns idosos na passadeira: com todo o respeito devido, naturalmente, mas também com os carros parados a pensar “isto vai demorar”. A Seleção de Portugal está viva. O problema é que, durante noventa e tal minutos, pareceu que o futebol português é que estava ligado às máquinas.
Dizem-nos que não perdemos nenhum jogo. É verdade. Também há restaurantes que nunca intoxicaram ninguém e, ainda assim, ninguém quer lá voltar. A questão não é apenas o resultado. É a sensação. E a sensação, neste Mundial 2026, é a de uma equipa com excelentes jogadores, ótimos currículos, publicidade irrepreensível, penteados da moda, patrocinadores satisfeitos, familiares orgulhosos e uma estranhíssima alergia à urgência. Portugal joga como se o objetivo não fosse ganhar, mas transmitir serenidade. Serenidade, aliás, é pouco. Isto já entra no domínio da meditação transcendental. A bola sai de trás, vai ao lado, volta atrás, passa pelo meio, regressa ao lado, cumprimenta o lateral, faz uma pausa para hidratação, pede um café, consulta o Google Maps e, quando finalmente se aproxima da área, alguém se lembra: “esperem lá, onde está o Cristiano?” E pronto. Lá se interrompe o ataque, como quem para uma ambulância para deixar passar o carro dos noivos.
Onde está o Cristiano?
O grande problema desta Seleção não é Cristiano Ronaldo existir. Seria absurdo fingir isso. Cristiano Ronaldo foi, durante anos, uma das maiores forças competitivas que o futebol viu. Ganhou, marcou, arrastou equipas, inventou finais, construiu uma carreira que parece escrita por um contabilista com delírios épicos. Portugal deve-lhe muito. O futebol português deve-lhe muito. Até a indústria portuguesa da lágrima em câmara lenta lhe deve uma estátua. Mas há um momento em que a gratidão se transforma em chantagem emocional. E esse momento chega quando uma equipa inteira parece jogar não para a baliza adversária, mas para a gestão do legado de um homem. A pergunta deixou de ser “como é que Portugal pode ganhar?” para passar a ser “como é que Portugal pode ganhar sem incomodar a narrativa do Cristiano?” E quando o futebol entra neste regime, já não estamos perante uma seleção nacional. Estamos perante uma fundação, uma holding, uma plataforma de conteúdos e, eventualmente, uma equipa de futebol nas horas vagas.
A estratégia ofensiva portuguesa começa a parecer uma versão futebolística de Onde Está o Wally?, só que com menos riscas, mais bíceps, muito mais publicidade e o número 7 nas costas. Onde está o Cristiano? Está na área. Onde está o Cristiano? Está a pedir a bola. Onde está o Cristiano? Está a abrir espaços, dizem-nos. Onde está o Cristiano? Está a pressionar mentalmente, explicam-nos. Onde está o Cristiano? Está no sítio certo à hora certa, garantem-nos, mesmo quando a hora já passou e o sítio certo parece ter ficado três metros ao lado. O discurso oficial tornou-se tão elástico que já dá para tudo. Se toca pouco na bola, é porque está a fixar centrais. Se não pressiona, é porque está a poupar energia para o momento decisivo. Se não aparece, é porque a sua ausência visível cria uma presença invisível. Se joga os 90 minutos, é porque está muito bem fisicamente. Se a equipa não cria oportunidades, é porque os colegas ainda estão a aprender a “sincronizar movimentos”. Isto já não é análise tática. É astrologia com colete da FIFA.
O seleccionador do ambientador
E depois há Roberto Martínez, esse apóstolo da boa disposição regulamentar, esse homem capaz de olhar para uma casa a arder e........
