Opinião | Greve: a escola fecha primeiro por dentro
Uma escola fechada oferece uma imagem simples a um problema complexo. Diante do portão, interrompe-se uma rotina, desorganiza-se uma família, perde-se uma aula. As câmaras encontram depressa o ângulo e lugar de onde transmitir; mais difícil é encontrar o momento em que começou a falhar aquilo que agora se tornou notícia. A degradação de uma relação raramente dispõe de imagens televisivas. O cansaço não tem a evidência de uma barricada, nem a desilusão produz o fumo que permite localizar um incêndio. Até ao dia em que o mal-estar se torna impossível de ignorar, podemos continuar a chamar normalidade ao que apenas continua a funcionar.
Neste início de outubro, o espaço Lusitano e o Hexágono apresentam-nos realidades que seria intelectualmente desonesto confundir. Em Portugal, a greve de 2 de outubro abrange trabalhadores das carreiras gerais da Administração Pública, incluindo assistentes operacionais e técnicos, com reivindicações de valorização profissional e salarial. O seu impacto nas escolas não autoriza a apresentá-la como uma greve de professores ou uma revolta estudantil. Em França, são os alunos dos liceus que protagonizam uma mobilização marcada por queixas sobre a falta de docentes, turmas sobrelotadas e instalações degradadas, acompanhada por episódios de violência e pelo encerramento de centenas de estabelecimentos. São acontecimentos distintos; a comparação interessa pelo que nos obriga a pensar, não por uma equivalência que os factos recusam.
O editorial do Le Monde de 2 de outubro coloca a escuta no centro da discussão e condena a violência que atravessa o movimento francês. Essa dupla exigência parece-me essencial: reconhecer a legitimidade de uma preocupação não legitima todos os comportamentos praticados em seu nome. Destruir uma escola fere precisamente o bem comum que se pretende defender; agredir um professor, um funcionário ou um polícia não aproxima ninguém de uma educação melhor. Porém, condenar a violência também não dispensa o poder político de compreender as reivindicações, distinguir responsabilidades........
