O estado da violência ou o desgoverno da paz
Há uma eficiência do Estado que impressiona: a velocidade com que consegue retirar uma tenda de uma praça. Quem espera por uma casa, por uma resposta dos serviços, por uma solução que permita sair do quarto onde a vida ficou encalhada teria razões para desejar semelhante prontidão. Mas a urgência administrativa parece encontrar uma energia particular quando chega a hora de remover os sinais visíveis daquilo que não se resolveu.
Nas últimas semanas, Lisboa e o Porto tornaram-se lugares dessa contradição. As pessoas reclamam condições para habitar as cidades; as autoridades intervêm para desocupar os espaços onde essa reclamação se torna impossível de ignorar. Na madrugada de 1 de novembro, depois das marchas de sábado, voltaram as cargas e o desmantelamento das acampadas. A Deutsche Welle descreve marchas pacíficas seguidas de intervenções policiais nas duas cidades. Regista também a versão da polícia sobre o lançamento de objetos durante os desalojamentos. O rigor exige que se diga uma coisa e outra.
Entretanto, o assunto atravessou fronteiras. Reuters, AFP, Al Jazeera, Deutsche Welle, Euronews e vários jornais estrangeiros deram conta dos acontecimentos. Portugal passou a ser notícia pelas operações policiais contra protestos nascidos da crise da habitação. Essa exposição deveria inquietar o poder, mas a inquietação principal pertence-nos: são pessoas que vivem entre nós, e não a reputação turística do País, que precisam de proteção.
Dias antes, a 29 de outubro, o Courrier international recuperara um trabalho da própria VISÃO para falar do rastilho das desigualdades e de uma juventude cada vez mais qualificada, mas sem perspetivas de ascensão social. A ligação........
