Afinal, o que nos deixa António Guterres? Esperança
Há momentos em que um discurso político deixa de pertencer inteiramente à política e passa a dizer respeito à nossa condição humana. O último discurso de António Guterres, na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, pronunciado em Nova Iorque, a 22 de setembro de 2026, foi um desses momentos. Não foi apenas a intervenção de um secretário-geral que se aproxima do fim do mandato, nem apenas o balanço de uma década à frente da organização fundada sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial. Foi, acima de tudo, um exercício de consciência diante de um mundo que mudou profundamente enquanto nós mudávamos com ele, muitas vezes sem perceber a dimensão da transformação.
Guterres olhou para aquilo que fomos fazendo ao longo destes anos e encontrou um planeta onde as fraturas se aprofundaram, as guerras se prolongaram, a confiança se desfez, a desigualdade se agravou, a crise climática deixou de ser uma ameaça futura e passou a habitar o nosso quotidiano, enquanto a Inteligência Artificial (IA) começou a alterar, a uma velocidade vertiginosa, a própria relação entre o ser humano, o conhecimento e o poder. A sua intervenção teve, por isso, o valor raro dos discursos que não procuram apenas interpretar o presente, mas perguntar-nos que futuro estamos a construir com aquilo que fazemos hoje.
É precisamente essa a palavra que melhor define o discurso: consciência. Não a consciência abstrata de quem observa o mundo à distância, mas a consciência concreta de quem percebe que nenhuma das grandes crises do nosso tempo existe isoladamente. A guerra não é apenas uma questão militar; a desigualdade não é apenas económica; a emergência climática não é apenas ambiental; a IA não é apenas tecnológica. Todas elas são, na leitura de Guterres, manifestações de uma questão mais profunda: a questão do poder. Quem o possui, quem dele é privado, como é exercido, em benefício de quem e com que responsabilidade perante os outros. Esta mudança de perspetiva é essencial, pois nos retira da confortável tentação de considerar cada crise como uma exceção e obriga-nos a reconhecer uma estrutura comum por detrás de fenómenos aparentemente distintos.
O mundo está a mudar, porque o poder também está a mudar de mãos, de escala e de natureza: desloca-se entre Estados, concentra-se em grandes corporações e indivíduos com uma influência que ultrapassa fronteiras e, pela primeira vez com esta intensidade, começa a ser delegado em sistemas de IA capazes de intervir em decisões que podem afetar a vida de milhões de pessoas.
É nesta consciência que devemos ler as guerras que Guterres levou para o centro da Assembleia Geral. A Ucrânia continua marcada pela invasão russa e pela morte de civis; o Médio Oriente permanece mergulhado numa violência que não pode ser normalizada por sucessivos ciclos de hostilidade e por aquilo a que o próprio secretário-geral chamou, com dureza, “cessar-fogos” que pouco mais são do que fogos menores; Gaza continua a carregar uma devastação humana imensa; o Sudão vive uma guerra que se transformou numa guerra contra os civis, com deslocações em massa, fome, ataques a hospitais e violência sexual; e Myanmar corre o risco de desaparecer do horizonte da atenção internacional enquanto a violência e o deslocamento prosseguem. Guterres não apresentou estas tragédias como uma sucessão de episódios geopolíticos. Procurou mostrar aquilo que existe em comum entre elas: o momento em que a força deixa de aceitar limites, a diplomacia perde espaço, a responsabilidade é adiada e o direito internacional deixa de funcionar como uma barreira contra a arbitrariedade.
É aqui que o seu pensamento adquire uma dimensão que ultrapassa a diplomacia: para Guterres, a paz não pode ser confundida com a simples ausência de guerra. A Paz significa........
