A crónica: a estante mais silenciosa. Por José Paulo Santos
Entro numa livraria sem procurar um livro em particular. Caminho devagar entre as estantes, como quem percorre uma cidade desconhecida, sabendo que os melhores encontros raramente acontecem nos lugares assinalados no mapa. Pego num livro, leio duas páginas, volto a colocá-lo no lugar. Faço o mesmo noutro corredor. Às vezes saio sem comprar nada. Outras vezes levo apenas um volume, embora tenha passado mais de uma hora rodeado por milhares deles.
Há quem entre numa livraria para comprar livros. Eu entro para conversar. Conversar com autores que nunca conheci, com ideias que ainda não pensei e, sobretudo, comigo próprio.
As livrarias têm geografias invisíveis. Existem estantes luminosas, onde se acumulam as novidades e os livros que prometem mudar a nossa vida em poucos passos. Há corredores permanentemente concorridos e outros onde apenas entram os leitores mais pacientes. Ao longo dos anos, descobri que o meu percurso termina quase sempre diante da mesma estante: a da poesia e a das crónicas.
Não costumam ser as maiores. Raramente ocupam o lugar de destaque. Quase nunca reúnem filas de leitores. Está ali, discretas, entre o romance, os thrillers, o ensaio, como se pertencessem um pouco aos três e, ao mesmo tempo, a nenhum deles.
Durante muito tempo interroguei-me sobre essa estranha fidelidade. Hoje creio conhecer a resposta.
Costumamos dizer que a crónica escreve sobre o quotidiano. A afirmação é verdadeira, mas fica aquém da sua vocação mais profunda. O quotidiano é apenas o lugar onde ela começa. A sua verdadeira matéria é o reconhecimento.
Existe uma diferença essencial entre ver e reconhecer. Ver é um ato da perceção. Reconhecer é um ato da inteligência, da sensibilidade e da consciência. Todos atravessamos as mesmas ruas, cruzamos as mesmas pessoas, escutamos conversas interrompidas, assistimos a pequenos gestos de delicadeza ou de indiferença. Quase tudo........
