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É urgente plantar sombra. Por José Paulo Santos

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04.09.2026

Na canícula de 40 °C, entre França e Espanha, constatei o que Aveiro parece ter esquecido: a sombra é uma infraestrutura pública, o banco à sombra é um medicamento, o canto dos pássaros é saúde mental e quem planta uma árvore assina um pacto com o futuro.

Quando o termómetro se instalou entre os 36 e os 41 °C, aprendi a ler as cidades pela sombra. Foi na França da canícula, sob um céu cor de forno e um asfalto a queimar as solas, que descobri que o verdadeiro salva-vidas não tem sirene nem logótipo: tem copa. E a copa, naquelas latitudes, tem nome: chama-se plátano.

Até as estradas mudam de natureza quando os plátanos assumem o comando. Houve tardes em que a nacional se fez túnel verde: duas alas de árvores antigas debruçadas sobre o carro, a luz coada como por dentro de uma catedral e o automóvel a passar de aldeia em aldeia da Occitânia com uma diferença de vários graus no painel. Fora do túnel, os campos ceifados ardiam; dentro, havia essa brisa antiga que nenhum manual explica. Uma ala de plátanos não é uma decoração da berma: é uma obra pública do século XIX que ainda hoje salva vidas e que nós, em nome do progresso e da visibilidade, temos vindo a abater.

Nas cidades, a lição repete-se à escala da rua. Sob a copa frondosa, a luz coa-se numa água verde; o ar refresca; os passeios, as esplanadas, as ruas inteiras ganham outra temperatura. De Toulouse a Bordéus, de Albi a Narbona, a coreografia da canícula repetia-se: lá fora, a brancura e o forno; lá dentro, dentro da sombra, a vida lenta de uma esplanada, o café demorado, a conversa sem pressa, o clique seco das bolas de petanca entre os troncos. Sob um plátano, o corpo descansa, o pulso abranda, a cidade deixa de ser inimiga. A diferença entre o sol e a sombra, em dias de 40 °C, é a diferença entre suportar a cidade e habitá-la.

Sombra, companhia, tempo

Em Toulouse ou em Valladolid, detive-me numa praça pequena que dizia tudo sobre inteligência cívica: uma árvore de copa redonda e cerrada, um banco de madeira, mesas pequenas de café, a tarde a passar. Sob a árvore, dois velhos prolongavam a conversa, duas cadeiras, uma mesita, um relógio que não mandava. Ninguém consumia nada de extraordinário; consumiam sombra, companhia, tempo. Pensei nas pernas cansadas, nossas e dos nossos pais, que não perdoam distâncias sem descanso.

Uma cidade que leva os idosos com carinho e respeito mede-se também pelos bancos: um banco à........

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