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De Meloni a Arendt: a curva da política moderna

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No passado dia 24 de abril, em Roma, o Governo de Giorgia Meloni, depois de já ter contado com a aprovação da Câmara Alta do Senado, viu aprovado, agora na Câmara dos Deputados, um novo pacote legislativo, através do qual se tratou temas como a imigração, a segurança e a criminalidade, endurecendo mecanismos de controlo e reforçando, manifestamente, a intervenção do Estado na esfera pública.

O escândalo do pacote legislativo apresentado pelo Governo de Meloni, apesar de outras propostas claramente discutíveis, foi haver uma que, sem qualquer pejo ou disfarce, se propunha a pagar cerca de € 615,00 a advogados por cada imigrante que conseguissem – sabe-se lá de que forma ou maneira –, convencer a regressar, voluntariamente, ao seu país de origem.

Apesar de esta escandalosa proposta ter sido, a muito custo, retirada perante a Câmara Baixa dos Deputados, há, além do mais, um gesto político que não deve passar incólume.

O gesto, que nem corresponde, já, à forma descarada como alguns governos encaram a discricionariedade da Lei, nem à desconsideração crescente que fazem ao Humanismo que deu base às democracias modernas, é a expressão clara de uma nova forma imediatista, e geral, de fazer política: existe um tema complexo e exigente a legislar? Proíbe-se!

Durante uma vida inteira achou-se que “a união fazia a força”, que a humanidade só teria sobrevivido ao passar dos milénios porque se havia juntado entre si contra o destino e, agora, esta nova forma imediatista de fazer política vem substituir aquela ideia por outra, mais fria e estritamente funcional: a de que o mundo humano não se constrói em conjunto, organiza-se por manifesta exclusão.

A sensação que esta nova forma de fazer política traz é evidente não só no que diz, mas, por outro lado, talvez ainda mais, naquilo que deixa de dizer. Se antes se dizia querer conquistar o futuro e hoje apenas se diz querer manter o presente, é inevitável concluir que a política deixou de propor-se a ampliar o mundo e, discretamente, mesmo dando o dito por não-dito, começou tão só administrá-lo.

Com muita certeza, políticas assim, assentes numa forma imediatista de fazer mundo, exponenciam uma realidade apática na qual o cidadão, com olhos para ver, percebe que algo no horizonte do possível se estreitou por completo. Aliás, como se o mundo tivesse deixado de ser aquilo que podia ser, construído em comum por todos, para passar a ser aquilo que ainda vai conseguindo ser, construído tão só para alguns.

Entenda-se que o mundo humano jamais sobrevive quando se fecha em si mesmo, exigindo, precisamente para se abrir ao que realmente é, aquilo que ainda não foi sequer possível pensar. Por outras palavras, à pergunta “existe um tema complexo e exigente a legislar?”, o mundo humano, para ser enquanto mundo que é realmente, apenas pode responder: “Ouse-se!”.

Isto porque, ao contrário de uma eventual restrição imediatista, é no gesto de ousar que se consegue ir desvelando o destino do mundo, não como aquilo que nos é dado, mas como aquilo que ainda vamos a tempo-breve de construir. Qualquer política, seja ela qual for, que ponha as dificuldades debaixo do tapete, pode, no imediato, até ser sedutora por parecer apresentar o que se deseja. Contudo, quando as dificuldades deixam de poder ser evitadas, esta nova forma de fazer política revela o vazio de uma intenção que preferiu escondê-las ao invés de usar de ambição em transformá-las.

É certo que atravessamos uma fase difícil da História e não se fala, desta vez, apenas das crises humanitárias do mundo, mas, verdadeiramente, da crise do mundo humanista, onde sempre só nasceu o futuro do Humano.

Aliás, sobre este mundo em manifesta crise atual, Hannah Arendt chegou a dizer que era o único local onde nos podíamos encontrar para agir em comum, para iniciar algo novo, para romper com o que parecia dado e, acima de tudo, para concretizarmos a liberdade enquanto ação, o que, precisamente, é o contrário de uma política que, perante um problema, apenas se limita a proibir em vez de o transformar em oportunidade para criar progresso.

Hannah Arendt sabia, com a astúcia que caracteriza os grandes pensadores, que sempre que se deixa de ousar perde-se a liberdade e, em consequência disso, tudo, na esfera pública, sendo apenas administrável, faz com que a política passe a mero exercício sobre o que existe e já nunca sobre o que ainda pode existir.

Porém, o que nós sabemos e Hannah Arendt não é que o maior risco do nosso tempo já não reside apenas na perda iminente da Liberdade, mas, isso sim, na forma como aprendemos, lentamente, a viver distantes dela. Na forma que encontrámos para continuar a organizar o mundo, mesmo depois de termos deixado de o querer transformar. Na forma, muito passiva, que nunca foi nossa, mas, alguém, fez com que achássemos que sim. Na forma, talvez! Mas nunca, jamais, no conteúdo, que continua a resistir num cantinho velho do que podemos ainda, sempre, vir a ser – caso, claro, ousemos sê-lo vez alguma.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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