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Prémio Laranja Amarga para o descalabro habitacional

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15.04.2026

As más notícias sucedem-se para a estratégia de gestor de brindes de um Governo sem apoio popular, nem maioria parlamentar, acossado pela crise energética instalada e pela crise económica anunciada.

Em 2025, a inflação estabilizou em cerca de 2,3% anuais, apesar do crescimento da procura interna, o que permitiu fazer um pequeno brilharete com o aumento em cerca de 6% do salário mínimo para os magros 920 euros e das pensões mais baixas em 2,8%, mas ainda com o chamariz do eventual bónus de verão que foi dado nos dois anos anteriores, ainda que não certamente por terem sido anos de frenesim eleitoral.

Mesmo os salários reais tiveram um crescimento médio de 3,9% em 2024 e de 3,2% em 2025, o que certamente terá ajudado, mesmo sem grande entusiamo, mas também pela ausência de alternativas mobilizadoras, à sobrevivência do Governo de Luís Montenegro, apesar da incapacidade em gerir crises ou das desventuras na área da saúde.

Em 2026, o aumento geral da função pública já só foi de 2,15%, antecipando o final do entusiasmo com as revisões de carreiras com maior capacidade reivindicativa e um ano sem previsão de eleições, ultrapassado que fosse com poucos danos o Cabo das Tormentas das presidenciais.

As previsões da primavera do FMI, ontem divulgadas, incorporando já alguns efeitos da guerra do Golfo Pérsico mesmo com a incerteza sobre a duração do conflito, são devastadoras para as expectativas governamentais para 2026 ao confirmarem mais um ano com a economia a crescer abaixo de 2% , e não acima de 3% como prometeu Montenegro em campanha eleitoral, e a inflação a superar os 3% anuais, depois do aumento para 2,7% verificado em março.

Com o final dos investimentos a fundo perdido apoiados pelo PRR, no único país da UE que depende em cerca de 90% dos fundos europeus para o investimento público, e a explosão dos preços dos combustíveis, antecipa-se um final de ano em ritmo de travagem brusca a caminho de uma nova recessão.

Neste quadro sombrio, seria decisivo o papel do setor da construção, essencialmente baseado em investimento privado, dada a consabida necessidade de aumento de oferta de casas no mercado.

Mas a construção para habitação é provavelmente o setor mais negativo da atuação do Governo sobre a economia, em que a demissão das políticas públicas, o extremismo ideológico liberal e a dependência das receitas fiscais geradas para o Estado e as autarquias locais têm promovido uma explosão de preços que torna a autonomia habitacional um sonho distante e arrisca provocar um colapso social de consequências imprevisíveis.

Se os preços em geral subiram no final de 2025 cerca de 2%, e os salários nominais à volta de 5%, o Eurostat veio denunciar que no último trimestre do ano passado se verificou, em Portugal, uma explosão dos preços das casas em termos homólogos para 18,9%, só superada pela Hungria de Orban. A preocupação com o crescimento dos preços da habitação tornou-se uma prioridade da Comissão Europeia, apesar da variação média europeia ser apenas de uns modestos 5,5% com que os portugueses nem sonham.

No final do ano passado, os preços da habitação baixaram na Finlândia, e em França cresceram apenas 1% ou 3% na Alemanha. Em Espanha discutem-se acaloradamente medidas de contenção dos preços face a um crescimento anual de 12,9% que é considerado insuportável.

O grave da situação portuguesa é que a tendência se agravou ao longo de todo o ano, enquanto a banca e as imobiliárias festejavam os apoios ao negócio dados pelo Governo entre garantias bancárias e benesses fiscais, ao mesmo tempo que eram eliminadas muitas das novas casas a preços acessíveis previstas no PRR.

O aumento dos preços, que estava em 7% quando Montenegro ganhou as eleições de 2024, passou de 16,2% , no início de 2025, para uns estratosféricos 18,9% no final do ano.

Qual é a resposta do Governo a este descalabro? Mais vantagens fiscais para as construtoras, que serão rapidamente incorporadas no aumento da margem de lucro, e um novo conceito de “renda moderada” até 2300 euros. Seria surpreendente que a repetição da receita em 2026 tivesse resultados muito diferentes da primeira dose de final de 2024.

O problema é que a brusca inversão da tendência da evolução dos juros, que já recomeçaram a subir, pode levar a um colapso da procura sem que a oferta tenha crescido.

No final de 2025, Portugal conseguiu ser simultaneamente o país da zona euro com o maior aumento dos preços da habitação e um dos quatro em que o número de transações baixou. O abrandamento dos novos licenciamentos para habitação é também um indicador avançado de preocupação até agora ignorado pelo Governo.

Os dados ontem divulgados pelo INE sobre a atividade do setor da construção até fevereiro de 2026 acentuam o sinal de alarme de uma situação com preços historicamente altos, recessão nas transações e ritmo de construção em queda. A construção de novos edifícios está em queda desde outubro e teve em fevereiro uma redução homóloga de 0,8%. Para além dos preços e dos juros, talvez a dificuldade em recrutar novos trabalhadores também contribua para os preocupantes resultados.

Nada disto é tema de grande debate público, nem entra na agenda do agitador Ventura, mas pelos seus efeitos na destruição dos sonhos dos que aspiram a uma habitação condigna, garante o prémio Laranja Amarga para Miguel Pinto Luz “o Grande Especulador”.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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