No cancro colorretal avançado, viver melhor é tão importante como viver mais
Durante décadas, a medicina oncológica perseguiu, e com toda a razão, o objetivo de prolongar a vida de uma pessoa com o diagnóstico de uma doença oncológica. Este continua a ser o objetivo primordial da investigação científica. Mas, em fases de doença avançada, quando a cura pode não ser um objetivo concretizável, destaca-se uma certeza: que o foco na qualidade de vida pode ser tão ou mais importante que apenas priorizar a duração da mesma. O conceito de qualidade de vida torna-se por isso um parâmetro essencial no momento de decidir o caminho terapêutico. E ainda que as ferramentas para a sua avaliação com precisão sejam inconsistentes, o lugar que ocupa na prática clínica é cada vez mais relevante.
É assim no caso do cancro colorretal avançado, onde podem surgir sintomas da própria doença, mas onde os próprios tratamentos podem ser responsáveis, podendo ter tanto impacto no dia a dia como a própria doença oncológica. Sobretudo quando se trata das linhas de tratamento tardias, onde o benefício de sobrevivência global pode ser limitado, queremos que este seja acompanhado de qualidade de vida, que garanta alguma autonomia do doente, para que este consiga manter as suas atividades de vida diária e possa estar presente em momentos importantes da sua vida.
A qualidade de vida é sempre valorizada, independentemente da fase em que a doença se encontra. No entanto, existe uma evolução natural naquilo que cada pessoa com uma doença oncológica prioriza ao longo do seu percurso. No início, quando os tratamentos ainda não começaram e os seus efeitos ainda não foram sentidos, é compreensível que o foco recaia sobre o tempo de vida, sobre a sobrevivência. Mas quem já passou por vários ciclos de tratamento, quem já experienciou o que significa perder qualidade de vida, não apenas pela doença, mas pela forma de a combater, passa a valorizar esta dimensão de forma muito mais intensa. À medida que o tempo avança e os tratamentos se sucedem, a gestão dos sintomas que podem surgir, a nível físico ou psicológico, toma preponderância.
Neste contexto, a comunicação assume um papel determinante. O conhecimento que os profissionais de saúde constroem sobre cada doente, a sua história, os seus medos, os seus valores, é o que permite compreender, verdadeiramente, o que cada pessoa procura. É este equilíbrio, entre o conhecimento da doença e o que melhor a controla, e a pessoa que temos à nossa frente, no seu todo e com todas as suas dimensões, vivências e expectativa de vida, que define o melhor tratamento para aquela pessoa concreta, naquele momento específico da sua vida. É esta também a arte da medicina.
Falamos, por isso, de decisão partilhada, que envolve tanto o doente como até os seus familiares. Um processo que enfrenta ainda vários obstáculos, de entre os quais destacaria o tempo de consulta e os constrangimentos que vivemos na medicina atual. Nem sempre é possível dedicar o tempo que cada situação exige e a isto acresce o facto de as pessoas serem todas diferentes. Persiste ainda uma cultura, embora agora com menor força, em que a decisão é vista como exclusiva do médico, deixando o doente sem voz nem participação real nas suas decisões terapêuticas.
Em relação ao cancro colorretal metastizado, é importante transmitir às pessoas e aos seus familiares que a ausência de cura não significa a ausência de esperança. Existem tratamentos, existem formas eficazes de controlar a doença e de gerir os sintomas que dela decorrem. É essencial transmitir esta mensagem: a de que é possível gerir a doença e os seus efeitos, procurando um equilíbrio para viver melhor no dia a dia. Ao mesmo tempo devemos evitar que sejam criadas expectativas que não são reais e que vão além daquilo que a medicina pode proporcionar. A realidade é que hoje já temos tratamentos para as situações mais avançadas, que podem prolongar o tempo de vida com qualidade, o que significa controlar a doença durante mais tempo, com a preocupação de adaptar a estratégia à pessoa que temos à nossa frente, envolvendo-a na decisão.
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