Quando a vergonha desaparece: a educação no laboratório da nova direita europeia
Durante décadas, a extrema-direita europeia ocupou um lugar relativamente marginal no sistema político. Os seus temas existiam, os seus eleitores também, mas havia um limite social claro: certas posições eram consideradas politicamente inaceitáveis. Esse limite − mais cultural do que institucional − funcionava como uma barreira simbólica à normalização dessas ideias.
É precisamente essa barreira que, segundo o cientista político Vicente Valentim, tem vindo a desaparecer. No seu livro O Fim da Vergonha (Gradiva, 2024), Valentim defende que o crescimento recente da direita radical na Europa não resulta apenas de crises económicas, da imigração ou do descontentamento social. Resulta sobretudo de uma transformação nas normas sociais que regulam o que é aceitável dizer e defender no espaço público. Quando a vergonha desaparece, certas ideias deixam de exigir justificação.
Esta mudança tem implicações profundas para a política democrática. Mas talvez em nenhum domínio elas sejam tão visíveis − e tão estratégicas − como na educação.
A escola é sempre um campo privilegiado de disputa cultural e política. Não apenas porque forma cidadãos, mas porque define narrativas coletivas: sobre a História, a identidade nacional, os valores sociais e o lugar do indivíduo na comunidade. Quem governa a educação intervém, inevitavelmente, na forma como uma sociedade se pensa a si própria.
Nos........
