Uma caneca de plástico e tudo o que ela diz sobre nós. Opinião de uma advogada
No dia 16 de maio de 2026, formaram-se filas à porta de lojas Swatch em várias cidades do mundo. Houve cenas de pancadaria em vários sítios. E também aqui, em Portugal, no Colombo, em Lisboa, houve gente que dormiu dentro do centro comercial, de um dia para o outro, para garantir o lugar. As pessoas tinham saído de casa de madrugada, algumas tinham passado a noite ali, para comprar um objeto. Não um medicamento que faltasse, não pão, nada de que precisassem. Um relógio de bolso.
Escrevo isto outra vez devagar, porque vale a pena fixar a estranheza da frase. Um relógio de bolso. Aquela coisa que os nossos bisavôs traziam no colete e que desapareceu da vida humana há cerca de um século. Voltou ontem, custa à volta de quatrocentos euros, vende-se um por pessoa, por loja, por dia, não há venda online, e foi suficiente para mover multidões. Chama-se Royal Pop e nasceu de uma colaboração entre a Swatch e a Audemars Piguet, uma das casas relojoeiras mais fechadas e elitistas do mundo, que nunca na sua história tinha emprestado o seu desenho a quem quer que fosse. Nem a estrelas, nem a marcas, a ninguém.
E a imprensa especializada, que não costuma ser dada a filosofias, encontrou imediatamente a palavra certa para descrever o que isto é. Chamaram-lhe o Labubu dos relógios. “Bye bye Labubu”, escreveu uma revista da especialidade. Outra foi mais cruel e mais exata: a fivela de saco tornada mecânica, masculina, a seiscentos e trinta dólares. O Labubu, aquele boneco de olhos esbugalhados que durante ano e meio andou pendurado em malas que custam mais do que um carro, provou uma coisa, e foi esta: o acessório passou a ser o ponto, e não a mala. O que se pendura passou a valer mais do que aquilo de onde se pendura.
Eu podia agora escrever o texto fácil. O texto que toda a gente espera e que já foi escrito mil vezes. As pessoas são fúteis, materialistas, vazias, capazes de dormir na rua por um boneco mas incapazes de atravessar a rua para ajudar um sem-abrigo. É verdade que esse contraste existe e dói olhar para ele. Mas se eu........
