Tão perto, tão longe: Planalto e Congresso têm maior afastamento em 35 anos
Tão perto, tão longe: Planalto e Congresso têm maior afastamento em 35 anos
Em dois dias, o governo Lula (PT) sofreu uma sequência de derrotas no Congresso: viu o nome indicado pelo presidente ao STF ser vetado pelo Senado e, no dia seguinte, assistiu à derrubada de seus vetos ao PL da Dosimetria, que deve beneficiar os condenados pelo 8 de Janeiro —e também o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
As 48 horas de reveses da articulação do governo no final de abril ilustram que o crescimento da distância ideológica entre a Presidência da República e o Congresso, que chegou a seu recorde no terceiro mandato de Lula.
É a maior distância já registrada numa média ponderada sobre como os legisladores enxergam o chefe do Executivo —apesar da proximidade física, já que o Congresso Nacional e o Planalto dividem, junto com o STF, o espaço da Praça dos Três Podres, em Brasília.
Os dados fazem parte da nova PLB (Pesquisa Legislativa Brasileira), que há 35 anos coleta opiniões de deputados e senadores em temas diversos. A pesquisa é comandada por Cezar Zucco, da Universidade Columbia, e Timothy Power, da Universidade de Oxford.
O distanciamento ideológico entre Congresso e Presidência agora é de 0,83, em uma escala de 1 ponto. O índice mais alto já registrado pela pesquisa anteriormente foi de 0,70, durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (PT) —que acabou sofrendo um processo de impeachment pelo Congresso em 2016.
O UOL antecipa nesta reportagem os artigos com os primeiros resultados da pesquisa conduzida em 2025, mostrando o aprofundamento da separação entre direita e esquerda e da relação com o governo.
Os dados recém-divulgados pelos pesquisadores são sobre temas como o apoio à intervenção militar, liberdade de expressão, clientelismo e individualismo dos parlamentares.
A polarização do Congresso, que continua em crescimento, ajuda a explicar a novo e largo afastamento.
Do Congresso que atuou no segundo mandato de Dilma e no governo Temer até o atual, houve alta de 33% num índice calculado pelos pesquisadores medindo o distanciamento ideológico entre os partidos.
É o maior índice desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
"Quando o PT chegou ao governo em 2002, a esquerda se deslocou em direção ao centro. Houve um período de moderação, quando a polarização caiu", diz Zucco.Depois, explicam os pesquisadores, a mediana dos congressistas caminhou para a direita, com um esvaziamento do centro.
"O que é mais marcante hoje é o desaparecimento de partidos de centro, matéria-prima do presidencialismo de coalizão", afirma Power. "O legislador mediano nunca esteve tão à direita", complementa Zucco.
Liberdade de expressão não é mais prioridade da esquerda
Em 2017, a esquerda estava nas ruas após o impeachment de Dilma e acumulava derrotas, com as primeiras condenações do presidente Lula........
