No passado, os EUA mandavam médicos e professores ao Irã, em vez de bombas
No passado, os EUA mandavam médicos e professores ao Irã, em vez de bombas
37º32'N, 45º05'LFaculdade de Ciências Médicas da Universidade de UrmiaUrmia, Azerbaijão Ocidental, Irã
A Academia de Gondishapur, fundada há mais de 1.700 anos, é tida como um dos primeiros centros de ensino e prática de saúde da história. É um marco da cultura do Império Sassânida, potência iraniana que ocupou boa parte da Ásia Ocidental entre 224 e 651 d.C.
O Irã já tinha uma longa tradição em saúde quando, no século 19, então conhecido como Pérsia, o país ganhou hospitais e faculdades de medicina modernos. Algo que aconteceu com o estreitamento das relações com um grande aliado: os Estados Unidos.
Mauro CezarFla-Flu ruim tem emoção só nos pênaltis
Fla-Flu ruim tem emoção só nos pênaltis
Josias de SouzaHaddad, o perdedor predileto de Lula em SP
Haddad, o perdedor predileto de Lula em SP
Igor GielowTeocracia do Irã agora veste farda
Teocracia do Irã agora veste farda
Mariana SanchesO cálculo eleitoral da guerra no Irã para Trump
O cálculo eleitoral da guerra no Irã para Trump
Missionários americanos ajudaram a fundar escolas, faculdades e outras instituições de ensino. Algumas seguem em funcionamento.
O médico Joseph Plumb Cochran se tornou uma pessoa querida pela população. Fluente em persa, turco, curdo e até assírio, ele fundou a primeira escola de medicina do país e um hospital na cidade de Urmia.
Cochran morreu em 1905. Cerca de 10 mil pessoas foram ao funeral.
Há 120 anos, milhares de iranianos lamentaram a morte de um médico americano em seu país. Um cenário difícil de se imaginar nas últimas décadas, mas um exemplo da proximidade que os dois países tiveram por um bom tempo.
Desde 1834, quando a primeira missão protestante americana foi estabelecida em Urmia, até 1953, quando o envolvimento da CIA nos assuntos internos do Irã colocou os EUA no caminho do conflito com Teerã, os americanos eram os mocinhos
A frase é do arqueólogo e historiador Daniel Thomas Potts, especializado em Irã, em um artigo no site "The Conversation".
Os gritos de "Morte à América" nas ruas de Teerã, as bandeiras com estrelas e listras queimadas e os cartazes demonizando Washington não estão aí desde sempre (até porque "desde sempre" não existe em história). Um século atrás, o inimigo era outro.
A longa amizade Irã-EUA
Enquanto os americanos se aproximavam dos persas no século 19, duas potências ganhavam a antipatia do povo: o Império Russo e o Reino Unido. Às vezes com ajuda dos próprios líderes do país, ambos exploraram a Pérsia em suas ambições imperialistas.
A Pérsia perdeu duas guerras e muito território para os russos nas primeiras décadas daquele século. Além disso, a Rússia passou a ter bastante influência sobre os xás persas, ao emprestar-lhes milhões e milhões de rublos.
Já contra os britânicos, a Pérsia perdeu uma guerra e assistiu a uma exploração econômica em níveis colonialistas.
No fim do século 19, o xá deu concessões exclusivas aos britânicos para tudo, de linhas telegráficas a tabaco Daniel Thomas Potts
Isso sem contar os direitos sobre o petróleo. A Companhia Anglo-Persa garantiu o abastecimento da marinha britânica na Primeira Guerra Mundial.
O poder era tamanho que, em 1907, russos e britânicos assinaram um acordo para dividir a Pérsia em zonas de interesse. A população (que, é óbvio, não foi consultada) se enfureceu.
Por isso a relação com os americanos era tida como especial. Os EUA, naquela época, eram uma potência benéfica. Até porque não havia interferência do governo.
No fim do século 19, os missionários americanos já tinham fundado 117 escolas nos arredores de Urmia. Todas eram iniciativas não governamentais. Washington não se interessava por Teerã.
Em 1922, a amizade começou a ganhar contornos oficiais e motivação geopolítica. Naquele ano, o americano Arthur Millspaugh, um ex-funcionário do Departamento de Estado, foi convidado a assumir a difícil função de salvar as finanças da Pérsia.
O país estava quebrado, e Millspaugh foi bem-sucedido na missão. Em 1927, a revista "Time", noticiando que o contrato de administrador-geral das finanças fora renovado para um sexto ano, mostrou que o poder e a influência dele eram tremendos:
Para ter uma noção do poder do doutor, muitas petições publicadas em um jornal persa começam assim: "Ó, Alá! Ó, xá! Ó, dr. Millspaugh! Atenda às nossas preces... Cada dólar gasto pelo governo nos últimos cinco anos precisa da autorização dele
Nos anos 1950, já com o nome Irã, a relação entre os dois amigos mudou drasticamente. Em 1951, o primeiro-ministro, Mohammad Mussadeq, nacionalizou as petroleiras estrangeiras em operação no país. Todo o resto das operações da antiga Companhia Anglo-Persa deu origem a uma das corporações mais poderosas do Reino Unido, a British Petroleum.
Mossadeq entrou em conflito com o xá, Reza Pahlevi. O monarca acabou deixando o Irã, e o Ocidente boicotou o petróleo do país.
O auge da crise veio em 1953. Mossadeq, que havia sido eleito democraticamente, caiu em um golpe de Estado. Os arquitetos do golpe foram os britânicos (zero surpresa) e a CIA.
Reza Pahlevi retornou ao país. Os EUA deixaram de ser uma potência benéfica. Era uma nova realidade, dentro do contexto da Guerra Fria.
Se a amizade Irã-EUA foi para o vinagre, a de Teerã com Israel seguia firme. Sim, os dois países também eram próximos. Falei dessa relação aqui na coluna.
Em todo caso, a proximidade entre as sociedades iraniana e americana não foi tão abalada. O número de estudantes do Irã nos EUA, por exemplo, disparou entre 1953 e 1979.
Todo o tempo investido no desenvolvimento da saúde e da educação no Irã abriu pontes para que Teerã enviasse um mar de gente para estudar e se especializar nos EUA. Algo mutuamente benéfico, porque não são só os estudantes estrangeiros que se beneficiam das universidades americanas — elas também ganham com a diversidade cultural adquirida nesse intercâmbio.
Em 1979, havia 51 mil iranianos estudando em universidades americanas. O país era, disparado, a maior fonte de alunos estrangeiros nos EUA.
O combo de reformas pró-Ocidente, corrupção e crise econômica minou a popularidade do xá, que fugiu do país quando, naquele ano, a situação ficou insustentável. A oposição se reuniu em torno do aiatolá Ruhollah Khomeini, e a Revolução Iraniana tomou forma.
O Irã deixou de ser uma monarquia e virou uma república islâmica. O aiatolá se tornou o líder supremo do país, que mergulhou em décadas de repressão dos direitos humanos e uma hostilidade mútua com os americanos.
Ainda assim, apesar de todas as dificuldades criadas por um regime que distanciou o país da comunidade internacional, o Irã continua sendo um exportador relevante de estudantes universitários. Mesmo vendo seu país taxado como membro do "eixo do mal", mesmo vendo as manifestações que pintam os EUA como o demônio, milhares de pessoas deixam o país todo ano para estudar em universidades americanas.
O último levantamento fala em cerca de 12 mil alunos iranianos nos EUA. "Amizades profundas que remontam a mais de um século podem resistir a muita coisa. Boa vontade e afeto podem permanecer adormecidos enquanto tempestades políticas se alastram", acredita Potts.
Se você gosta dos temas e textos que trago aqui no Terra à Vista, assine minha newsletter, com assuntos históricos de um jeito leve e surpreendente. Nos vemos lá!
Índice de histórias da coluna Terra à Vista:
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
8º Paredão: Babu, Chaiany e Milena defendem permanência no BBB 26
Fonseca elimina Tommy Paul e enfrenta Sinner nas oitavas em Indian Wells
BBB 26: Babu, Chaiany e Milena estão no 8º Paredão do reality
Vitor Roque decide, Palmeiras vence o Novorizontino e é campeão paulista
Verdão lava a alma com a volta do grito de campeão
