Moca: cidade do Iêmen devastada pela guerra já foi sinônimo de café
Moca: cidade do Iêmen devastada pela guerra já foi sinônimo de café
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13º18'N, 43º14'LAntigo Porto de MocaMoca, Taiz, Iêmen
Sabe aquela piada bobinha que diz que as montanhas-russas, na Rússia, são chamadas apenas de "montanhas"? Não funciona para a cafeteira italiana.
(A bem da verdade, também não funciona para a montanha-russa, porque os russos a chamam de "montanha-americana". Mas isso é assunto para outro dia.)
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Quanto à cafeteira italiana, ela não se chama apenas "cafeteira" na Itália. Seu nome é "moka". É uma referência ao mocaccino, mas a resposta é mais complexa.
Se "Moca" ou "Mocha" ou "Moka" fosse o sobrenome de um inventor ou um lugar na Itália, seria fácil. Moca é, sim, uma cidade. Só que ela não fica na Itália nem nos antigos territórios do Império Romano (e também não tem nada a ver com o bairro paulistano quase xará).
Uma xícara de mocaccino pode lhe remeter a uma praça toscana ou a um café no Vêneto. Mas Moca está longe da Itália. É um antigo porto no Mar Vermelho que, por muito tempo, foi sinônimo de café.
Em cerca de 1000 a.C., os diversos povos que habitavam o Deserto da Arábia faziam comércio de ervas e resinas aromáticas, como incenso e mirra, além de ouro da Índia. Grandes caravanas de camelos enfrentavam uma rota perigosa e inóspita. Não bastasse o calor escaldante, havia riscos de ataques de bandidos nômades.
A necessidade de um percurso mais seguro e menos árduo para chegar aos consumidores incentivou a criação de rotas marítimas. A parte sul do deserto, que ocupava uma posição estratégica no Mar Vermelho, se mostrou ideal.
A cidade de Moca se desenvolveu como o melhor desses portos. Ela conectava mercados tão distantes quanto Roma e os abastecia com mercadorias valorizadas pelo luxo e a distância percorrida.
O "Périplo do Mar Eritreu", texto escrito por volta do primeiro século da nossa era, descreve Moca como um dos portos mais movimentados do Mar Vermelho. Na época, ele era conhecido pelo comércio de olíbano, resina muito desejada na perfumaria, em especial para fabricar incensos.
Também exportava pérolas, cascos de tartaruga e cinábrio, um mineral vermelho brilhante usado em joias e utensílios domésticos. Importava arroz, trigo e tecidos indianos.
Enquanto isso, do outro lado do mar, uma novidade surgia. Fazendeiros do Império Axum, no Chifre da África, aprenderam a domesticar e cultivar café.
Em 525, Axum invadiu o Reino Himiarita, que ocupava o atual Iêmen. As mudas de café transportadas pelos invasores se adaptaram bem aos planaltos dominados.
A invasão do Império Axum durou só algumas décadas, mas deixou um legado tremendo com o café. Por muito tempo, praticamente todo o café colhido para exportação era cultivado no Iêmen, explica a historiadora Jeanette Fregulia no livro "A Rich and Tantalizing Brew" ("Uma bebida rica e tentadora", sem edição brasileira).
Houve uma ajuda também dos eventos políticos e militares que impactaram a região. No século 16, o Iêmen caiu diante de outra potência estrangeira, o Império Otomano, que dessa vez impôs um domínio muito mais longevo.
Os novos governantes otomanos mantiveram presença militar e um escritório de coleta de impostos, mas evitaram a ocupação total de Moca. Isso facilitou o comércio, explica a autora.
Já a historiadora da arte Nancy Um, especializada na arquitetura iemenita, argumenta que o papel dos otomanos foi muito maior. Moca só se tornou um porto relevante a partir da dominação turca, segundo ela.
De Moca, o café cruzava o Mar Vermelho até Suez, no nordeste do Egito, uma travessia de cerca de 1,9 mil quilômetros. Em tempos anteriores ao Canal de Suez, as mercadorias tinham que tomar rotas terrestres antes de chegar ao Mediterrâneo.
Então, camelos carregavam o café por 365 quilômetros até Alexandria. Nos armazéns da cidade egípcia, comerciantes de diversas nações europeias carregavam seus navios com os desejados grãos e atravessavam o Mediterrâneo, no caminho de volta.
Quando o café chegava aos seus primeiros consumidores no Ocidente, ele havia percorrido aproximadamente 5,1 mil quilômetros por terra e dois mares. Uma expedição que contribuiu para o status de produto de luxo" Jeanette Fregulia no livro "A Rich and Tantalizing Brew"
Até o fim do século 17, todo o café destinado à Europa iniciava sua jornada em Moca. Não à toa, uma das tantas lendas a respeito da origem da bebida a conectam diretamente à cidade.
Hadji Omar, um dervixe (seguidor do sufismo, vertente mística do islamismo), foi expulso de Moca por seus inimigos. Acabou no deserto, onde se esperava que ele morresse de fome.
Ele certamente teria morrido, não fossem algumas bagas estranhas que cultivava em um arbusto e levou consigo ao deserto. Apesar de parecerem comestíveis, elas eram muito amargas, então Omar tentou assá-las. Só que os grãos ficaram duros, então o dervixe tentou amolecê-los com água.
As bagas continuaram duras. Mas a água ficou marrom. Omar resolveu beber, na esperança de que o líquido contivesse algum dos nutrientes.
O homem se surpreendeu. Aquela bebida o revigorou, reanimou sua letargia e elevou seu espírito abatido.
Omar retornou a Moca, e sua salvação foi tida como um milagre. O líquido escuro que lhe deu nova vida se tornou popular no mundo todo e ele virou um wali, o equivalente muçulmano dos santos cristãos.
O fim do domínio árabe e turco
Integrar o poderoso Império Otomano permitiu aos árabes do Iêmen assegurar o domínio sobre o café. Mas os europeus acharam um meio de mudar isso.
Em 1609, os britânicos estabeleceram um entreposto comercial em Moca a fim de reduzir os custos do transporte. Os holandeses os seguiram cinco anos depois.
Uma vez em Moca, os europeus descobriram que a cidade mantinha um rigoroso controle sobre o café. Guardas otomanos asseguravam que somente grãos fossem exportados - as mudas não podiam deixar o Iêmen.
Fregulia menciona uma lenda que diz que um mercador português conseguiu surrupiar umas mudas. Isso teria dado início ao cultivo de café nas colônias europeias em várias regiões do planeta.
Mas ainda demoraria para que essa mudança impactasse Moca. A cidade viveu seu auge no século 18, antes de descer a ladeira.
Na década de 1730, mais de 3 mil homens trabalhavam no porto, negociando o café, que chegava de camelo vindo das regiões produtoras do Iêmen. Mas também havia outros produtos.
Resinas como olíbano, mirra e sangue-de-dragão, perfumes como bálsamo-de-gileade e especiarias como cominho saíam de Moca, segundo o relato de um viajante britânico nos anos 1730. Devia ser um porto bem aromático.
As coisas começaram a desandar uns anos depois disso. Ainda no século 18, a peste matou metade da população.
A internacionalização do café, enfim, começou a afetar a dominação de Moca. No século 19, o porto estava perigosamente dependente de mercadores somalis, que transportavam grãos da Etiópia através do Golfo de Áden para serem exportados via Moca.
Áden, outra cidade histórica do Iêmen, é um porto habitado há mais de 2 mil anos. Nos anos 1830, caiu sob domínio britânico.
Foi o golpe de misericórdia. Áden engoliu a enfraquecida Moca, que foi sendo abandonada. No começo do século 20, parecia uma cidade destruída por um terremoto.
O Iêmen é um país que surgiu apenas em 1990, após a unificação do Iêmen do Sul e do Iêmen do Norte. Áden era a principal cidade do Iêmen do Sul, que foi protetorado britânico até 1967. Já Moca ficava no Iêmen do Norte, que conquistou a independência do Império Otomano em 1918.
A ideia da unificação tomou corpo em 1972, mas antes veio uma guerra civil, fomentada pela Arábia Saudita. No fim dos anos 1980, o Iêmen do Sul, que era alinhado com a União Soviética, abandonou o regime comunista e retomou o diálogo com o vizinho.
Moca ganhou um novo porto em 1955, mas jamais recuperou a grandeza do passado. Em 2015, a cidade foi capturada pelos houthis no início da Guerra Civil do Iêmen. Pouco depois, foi bombardeada pelos árabes.
Os houthis são uma força rebelde antigovernista, que representa os zaiditas, maioria da população do antigo Iêmen do Norte. Zaidismo, por sua vez, é uma vertente do xiismo.
Já a sunita Arábia Saudita se intrometeu porque apoiava o governo do também sunita Abd Rabbuh Mansur al-Hadi, presidente do país até abdicar, em 2022. Os houthis têm o suporte do grande inimigo saudita, o xiita Irã.
A cidade sofreu ataques novamente em 2017 e 2021, quando galpões do porto, usados por organizações humanitárias que atuavam na guerra, foram destruídos. Moca é, hoje, um dos tantos lugares esquecidos de um conflito que já matou quase 400 mil pessoas, mas que ainda assim atrai pouca atenção da mídia e gera pouca gritaria nas redes sociais.
Não se sabe exatamente como a cidade portuária acabou nomeando a receita que leva café, leite e chocolate. Segundo Anda Greeney, especialista na história do café iemenita, até o século 19 Moca estava na boca das pessoas. Muitas chamavam o cafezinho do dia a dia, simplesmente, de "moca".
Na virada para o século 20, começaram a surgir receitas que misturavam café e chocolate. Como se dizia que o café iemenita tinha notas achocolatadas, é possível que essa característica tenha ajudado a firmar a fórmula — e o nome — do mocaccino.
A produção de café hoje no Iêmen tem muito mais valor histórico do que econômico. Ainda assim, "há variedades que não se encontram em nenhum outro lugar do mundo. Isso certamente tem um impacto no perfil de sabor único do café iemenita", explicou Greeney à rede saudita Al Arabiya.
Um café que parece cada vez mais condenado a ficar no passado. Peço desculpas por azedar seu mocaccino.
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