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Poluição do rio Camarajipe transforma águas de Salvador em esgoto

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04.04.2026

Poluição do rio Camarajipe transforma águas de Salvador em esgoto

"Tudo o que você puder imaginar", respondeu o pescador Luiz Soares, conhecido como Sinho, às vésperas da Festa de Iemanjá, orixá protetora das águas. À beira-mar, ele relembra as coisas incomuns que já viu na foz do Rio Camarajipe, cujo curso d'água desemboca no oceano que banha Salvador.

A lista inclui geladeira quebrada, pneu, armário, carrinho de supermercado, mesa, pedaços de plástico, colchão, roupas íntimas, fraldas, sapatos e até cadáveres. Oficialmente, o Camarajipe ainda não foi classificado como "rio morto" — quando um corpo hídrico perde a capacidade de sustentar formas de vida —, mas apresenta estágio avançado de degradação ambiental e já opera, na prática, como mero condutor de esgoto a céu aberto, afetando a saúde da comunidade pesqueira e a vida marinha.

Um dos principais destinos turísticos do Brasil no verão, em meio a suas festas populares e às altas temperaturas, Salvador sente os efeitos da poluição que chega ao mar pelo maior rio urbano da cidade, com cerca de 14 km de extensão. Ao todo, Salvador possui 13 bacias hidrográficas, e a do Rio Camarajipe (a terceira maior da cidade) abrange 42 bairros, com área de drenagem (onde as águas escoam naturalmente para o rio) total de 35,9 km².

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Enquanto as nascentes do rio estão em regiões periféricas, predominantemente residenciais, nas imediações do bairro de Pirajá, a foz fica em uma parte abastada de Salvador, como a região do bairro Costa Azul.

"Hoje, é repugnante ver a situação do rio. Virou um canal de esgoto abandonado. A fedentina é muito forte, e é possível ver muitos animais em decomposição, de ratos e cachorros a cobras. De vez em quando, surgem corpos humanos boiando nas águas contaminadas, aí ligamos para a polícia", disse o pescador, que há 40 anos acompanha as mudanças drásticas no encontro entre o rio e o mar.

Em outros tempos, até a década de 1970, o Camarajipe serviu para o abastecimento da cidade e também era um local de banho. Sabe-se que, em alguns trechos, era possível até beber de suas águas límpidas. Sinho conta que o problema começou a se intensificar há mais de duas décadas, uma mudança na realidade que ele percebe diariamente durante suas pescarias.

Além disso, antigamente, Sinho e seus colegas da Colônia de Pesca Z1 - Capatazia Jardim dos Namorados encerravam um bom dia de trabalho na orla com seus barcos apinhados de peixes e mariscos. Isso mudou: agora, eles se assustam com a escassez de algumas espécies e com a aparência alterada dos animais. Segundo o pescador, muitos apresentam coloração incomum, estão mais magros e têm a pele endurecida, o que compromete o comércio e reduz a renda de quem depende do que o mar fornece.

"A pesca de linha, na beira da praia, tem diminuído porque os peixes são migratórios e costumavam se aproximar em busca do alimento que vinha do rio. Diversas espécies desapareceram em razão da poluição e do aquecimento do mar, como a pititinga, o chicharro, o saramunete, o siri, a pinaúna, o carapau, a sardinha-de-faca e o peixe-gato", disse.

Ele também lamenta o sumiço das tartarugas durante a época de desova, que vai de setembro a dezembro. "Ano passado, só vi uma. Era normal ver pelo menos sete."

Durante um mergulho, Sinho ajudou a resgatar uma tartaruga que sufocava ao ingerir um preservativo mal descartado. "Elas confundem [o lixo] com alimento. Tem um tipo de água-viva que a gente chama de 'pepininho', parecida com uma camisinha. E não são só as tartarugas: às vezes, quando abrimos o peixe para limpar, encontramos plástico, material que ingerem por engano."

Em entrevista à Mongabay, o pescador também chamou a atenção para o assoreamento dos rios da orla. Ele relata que o acúmulo de areia tem bloqueado a foz do Camarajipe e impedido o escoamento natural da água — que acaba represada e, assim, se deteriora. Em períodos de seca, o mar aparenta estar menos poluído porque o fluxo diminui. Com a chegada das chuvas, no entanto, o volume acumulado rompe a barreira de areia e, de uma só vez, despeja a água contaminada e os detritos no litoral.

O problema também atinge outros rios como o Lucaia, o Rio das Pedras e o Jaguaribe, todos parte da hidrografia urbana de Salvador.

"Quando chove, normalmente, os trabalhadores da Limpurb [Empresa de Limpeza Urbana de Salvador] recolhem cerca de 50 sacos [de lixo] por dia na beira de cada rio, embora isso represente menos de 20% do que acaba indo para o mar. O movimento das marés empurra parte do material para a areia, e a maior parte segue para o oceano. Quem mergulha consegue enxergar a grande quantidade de lixo submersa",........

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