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Em um Brasil marcado para morrer, Carnaval é uma forma de afrontar a morte, diz historiador

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18.02.2026

Reflexões sobre os múltiplos sentidos da morte e fim da vida

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Em um Brasil marcado para morrer, Carnaval é uma forma de afrontar a morte, diz historiador

Ocupar as ruas no Carnaval é um jeito de dizer que a cidade nos pertence

No dia a dia, o direito de ir e vir serve a um sistema onde sempre saímos perdendo

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Jéssica Moreira é escritora e jornalista. Coautora do Blog Morte Sem Tabu e Cofundadora do Nós, mulheres da periferia

"O corpo carnavalizado, sambado, disfarçado, revelado, suado, sapateado, sincopado, dono de si, é aquele que escapa, subindo no salto da passista, ao confinamento da existência como projeto de desencanto e mera espera da morte certa. O Carnaval é o duelo entre o corpo e a morte." A frase é do escritor e historiador Luiz Antonio Simas, em seu livro "O corpo Encantado das Ruas" (Ed. Civilização Brasileira). Aqui, Simas nos convoca a olhar para o Carnaval como fenômeno que nos dá fôlego e força para enfrentar as adversidades: "a gente não brinca e festeja porque a vida é mole; a turma faz isso porque a vida é dura. Sem o repouso nas alegrias ninguém segura o rojão." Uma das cenas carnavalescas mais fortes que já vivenciei em São Paulo é ver a estação República do metrô tomada de gente pelas escadas rolantes. Leques batendo. Meninas e meninos negros fantasiados. Corpos à mostra. A voz alta entoando uma mesma música. A cena se repete em outras estações, em outras ruas: no Carnaval, os corpos negros e periféricos se sentem livres para viver.

No dia a dia, o direito de ir e vir na cidade serve a um sistema onde sempre saímos perdendo. Em uma São Paulo marcada por desigualdades sociais profundas —onde a distância entre a casa e o trabalho arranca quase todo o tempo de lazer— ocupar as ruas no Carnaval é um jeito de dizer que este espaço nos pertence; de que nosso corpo não é uma máquina que serve apenas ao trabalho; de que desejamos continuar vivos.

"A cidade, cenário deslumbrante, é um projeto de horror. Forjada na espoliação dos habitantes originais, na violência da escravização, nos projetos higienistas de suas elites. Ao mesmo tempo, nas frestas dos projetos de aniquilação, foram reconstruídos modos de vida e redes de sociabilidades", reflete o historiador Simas em vídeo publicado em suas redes sociais. Estar na rua também é uma forma de honrar nossos antepassados proibidos de participar de festejos carnavalescos. Por todo o Brasil, a população negra criou suas próprias manifestações culturais e festas.

No vídeo, Simas afirma: "desse embate nasceu, filho da morte e pai da vida, o nosso Carnaval. A festa é um grande ritual de subversão de um território em terreiro. E terreiro é todo o espaço praticado na dimensão do encantamento do ser no mundo." Exemplos disso são os afoxés trazendo os terreiros para a rua; os blocos afro, como o Ilê Aiyê, de 1974; o maracatu em Pernambuco; as escolas de samba reverenciando os orixás em seus enredos e modos de tocar cada instrumento. Em São Paulo, não foi diferente. No pós-abolição, a população negra recém-liberta migrou para as regiões periféricas das grandes cidades, sendo a Barra Funda, na zona oeste paulistana, um desses locais de encontro e fortalecimento de identidade. O bairro, que hoje é considerado o terceiro lugar mais "cool" do mundo pela revista britânica Time Out, também é o berço do samba na cidade. O largo da Banana, local de comércio de frutas, era o ponto de encontro de vários trabalhadores negros. Nos momentos de descanso, reuniam-se para tocar ritmos afro-brasileiros, dando origem ao samba paulistano.

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Em 1914, o líder negro Dionísio Barbosa criou o Grupo Carnavalesco Barra Funda, o primeiro cordão da capital de São Paulo. Este foi um dos pioneiros do Carnaval de rua. A experiência inspirou o surgimento de outras agremiações, como a Camisa Verde e Branco mais tarde, em 1953. Você pode conhecer muito mais dessa história no e-book Cartografias do Samba - trilhas do samba e memória negra na Barra Funda, da Iniciativa Negra. Nos anos de 1960, as escolas de samba surgem e os investimentos públicos se voltam mais fortemente aos desfiles. O Carnaval de rua se enfraquece, mas não morre. Em 2012, é criado o Manifesto Carnavalista e apenas em 2013 a Secretaria de Cultura reconhece oficialmente a importância do Carnaval de rua e ele passa a existir com mais força e tamanho; mas ainda assim enfrentando desafios diversos. No dia 12 de fevereiro, 69 blocos saíram às ruas reivindicando melhores condições de organização e participação, a ampliação do horário de desfile e mais infraestrutura.

Recuperando a fala de Simas, "o Carnaval é um organizador de mundos. Em um Brasil marcado para morrer, viver o Carnaval, ser cavalo da festa, no sentido místico mesmo, me parece ter sido ao longo dos tempos, uma forma arrojada de afrontar a morte. O contrário da vida, afinal, não é a morte. É o desencanto. O contrário da morte não é a vida, é o encantamento". Que continuemos encantados.

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