Contratos em 4D: o tempo na distribuição de risco
Mauricio Portugal Ribeiro
Sócio do Portugal Ribeiro & Jordão Advogados e mestre em direito pela Harvard Law School
Recurso exclusivo para assinantes
Contratos em 4D: o tempo na distribuição de risco
Infraestrutura mais barata, resiliente e exequível precisa de dados, simulação, transparência e responsabilidade
Na engenharia, essa evolução já ocorreu, e modelos preveem custos e ciclo de vida das obras
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
A partir das equações de Einstein, Hermann Minkowski formalizou o conceito de espaço-tempo: um contínuo quadridimensional no qual o tempo e o espaço perdem seu caráter absoluto para se tornarem componentes de uma mesma estrutura métrica invariante, na qual as medidas de cada dimensão variam conforme o estado de movimento do observador. A infraestrutura vive desafio análogo. Obras e concessões não são fotografias; são filmes de décadas, em que materiais envelhecem, demanda oscila, tecnologias mudam e a manutenção decide se uma ponte dura 30 ou 100 anos.
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Na engenharia, essa evolução já ocorreu. Ferramentas de BIM 4D (modelagem da obra integrada ao cronograma) e gêmeos digitais (representações digitais de ativos físicos) colocam equipes "dentro" do empreendimento e simulam o efeito do tempo sobre interferências, produtividade, desempenho e custos de operação e manutenção. Ao antecipar o ciclo de vida, a decisão de hoje deixa de ser apenas investimento inicial e passa a considerar longevidade, confiabilidade e custo total do ativo.
É preciso realizar também no mundo dos contratos administrativos o salto para o espaço-tempo: incorporar o tempo como variável intrínseca à distribuição de riscos. Hoje, a alocação de riscos é feita por instrumentos estáticos e gatilhos reativos, com escassa evidência empírica e memória institucional fragmentada. O resultado é conhecido: prêmios de risco elevados, disputas, atrasos, exposição fiscal não mensurada e confusão entre, de um lado, renegociações e reequilíbrios necessários, e, de outro, alterações indevidas das regras do jogo.
O caminho tecnológico, porém, está traçado. Com bases de dados de execução contratual, séries históricas de eventos (geotecnia, licenciamento, demanda, câmbio, eventos climáticos), desempenho dos contratos passados e custos de mitigação, será possível simular, com técnicas probabilísticas, o impacto físico, econômico e financeiro de cada risco ao longo de todo o contrato. O sistema estimará frequência, severidade, custos e indicará quem é o "melhor portador" do risco: a parte que consegue preveni-lo, absorvê-lo ou transferi-lo ao menor custo, preservando incentivos e reduzindo litígios. A alocação tenderá a ser semiautomática: o modelo sugere cenários e a distribuição de riscos; gestores públicos, engenheiros e juristas validam ou pedem novas simulações.
Nesse contexto, seguros e garantias ganham sofisticação. Em alguns casos, a eficiência estará no mercado segurador; em outros, a alocação ao poder concedente será racional —sabendo-se que isso não elimina o risco, apenas o socializa entre contribuintes, com efeitos fiscais que precisam ser mensurados e administrados.
Os princípios clássicos continuam valendo. A intuição de Max Abrahamson de alocar riscos a quem melhor os controla, o "cheapest cost avoider" de Guido Calabresi (quem evita o dano ao menor custo) e as leituras brasileiras sobre distribuição de riscos e reequilíbrio (como as de Marcos Barbosa Pinto) tendem a constituir o alicerce lógico desses modelos. A tecnologia não substitui a teoria; antes, a operacionaliza com granularidade.
Ícone Facebook Facebook
Ícone Whatsapp Whatsapp
Ícone de messenger Messenger
Ícone Linkedin Linkedin
Ícone de envelope E-mail
Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
Também cai a falsa oposição entre renegociação e reequilíbrio. Reequilibrar é aplicar a distribuição de riscos pactuada quando ocorrem eventos que impactam uma das partes do contrato, mas cujo risco foi assumido por outra parte; renegociar é alterar o pacto. Quanto melhor a simulação ex ante (antes do evento) e o monitoramento ex post (depois do evento), menor o espaço para renegociações oportunistas, e mais previsíveis as necessidades de reequilíbrio ao longo do contrato. Renegociação e reequilíbrio se tornam formas complementares de lidar com as incertezas.
Se queremos infraestrutura mais barata, resiliente e exequível, precisamos tratar a distribuição de riscos como tratamos a engenharia: com dados, simulação, transparência e responsabilidade. Incorporar o tempo aos contratos é reduzir incerteza sem ilusões e transformar risco em gestão.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
dê um conteúdo benefício do assinante Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler. benefício do assinante Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha. Já é assinante? Faça seu login ASSINE A FOLHA
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois Salvar artigos Recurso exclusivo para assinantes assine ou faça login
Recurso exclusivo para assinantes
Leia tudo sobre o tema e siga:
sua assinatura pode valer ainda mais
Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui). Também pode baixar nosso aplicativo gratuito na Apple Store ou na Google Play para receber alertas das principais notícias do dia. A sua assinatura nos ajuda a fazer um jornalismo independente e de qualidade. Obrigado!
sua assinatura vale muito
Mais de 180 reportagens e análises publicadas a cada dia. Um time com mais de 200 colunistas e blogueiros. Um jornalismo profissional que fiscaliza o poder público, veicula notícias proveitosas e inspiradoras, faz contraponto à intolerância das redes sociais e traça uma linha clara entre verdade e mentira. Quanto custa ajudar a produzir esse conteúdo?
Leia outros artigos desta coluna
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mauricio-portugal-ribeiro/2026/02/contratos-em-4d-o-tempo-na-distribuicao-de-risco.shtml
Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.
notícias da folha no seu email
notícias da folha no seu email
Na página Colunas da Folha você encontra opinião e crônicas de colunistas como Mônica Bergamo, Elio Gaspari, Djamila Ribeiro, Tati Bernardi, Dora Kramer, Ruy Castro, Muniz Sodré, Txai Suruí, José Simão, Thiago Amparo, Antonio Prata e muito mais.
EF-118: o contrato que definirá o padrão das novas ferrovias
EF-118: o contrato que definirá o padrão das novas ferrovias
Saneamento, evidência e o custo do negacionismo
Saneamento, evidência e o custo do negacionismo
Um novo Iluminismo para a infraestrutura
Um novo Iluminismo para a infraestrutura
