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Vladimir: é um casamento aberto ou direito de lavar roupa de dois caras?

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02.04.2026

Vladimir: é um casamento aberto ou direito de lavar roupa de dois caras?

"Eu e John sempre tivemos um acordo. É o que os jovens chamam de casamento aberto, mas sem o drama da comunicação", diz a protagonista de "Vladimir", série da Netflix estrelada por Rachel Weisz. A personagem não tem o nome completo, só a letra M., e está vivendo o drama de um escândalo sexual na universidade onde trabalha. Seria corriqueiro se o acusado não fosse seu marido John (João Slattery), que teve diversos casos com alunas e essas, anos depois, resolveram denunciar a conduta.

A traição não está em pauta — M. realmente não se importa com o fato dele ter ficado com tantas meninas — mas, sim, o impacto (financeiro inclusive) de uma provável expulsão da instituição. Ela quer ajudar o marido para evitar esse baque. Paralelamente, percebe um certo desprezo das colegas e alunas que acham que ela também deveria se colocar como vítima para apoiar as denunciantes.

M. não se vê como vítima e tem dificuldade de identificar como violência a relação de poder de John sobre as garotas jovens. "O prazer delas não se deu APESAR da dinâmica de poder e sim POR CAUSA disso", ela frisa, citando o jogo sexual de uma universitária em conquistar um homem mais velho. Um jeito antigo de pensar, mas difícil de se dissipar da personalidade de quem (como ela, com mais de 50 anos) foi criada sob o machismo institucionalizado. Desconstruir-se, porém, é mandatório, ainda mais trabalhando com educação de jovens.

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Nesse ínterim, M. fica obcecada pelo colega recém chegado, Vladimir (Leo Woodall, atual nome queridinho de Hollywood para quando o assunto é incendiar mulheres na meia idade). No acordo de seu matrimônio, seria justo ela seduzir o rapaz e ficar com ele quando bem entendesse. Mas no meio de um escândalo como o de John, as atribuições profissionais e da casa, e as crises naturais do envelhecimento, M. fica sempre aquém do objetivo. Isso sem contar com o estado civil do novato: casadíssimo.

A série é inspirada no livro de mesmo nome, de Julia May Jonas, ainda sem tradução no Brasil. O sorridente Vladimir pode estar sem camisa em sua piscina, mas mesmo assim ela não consegue tomar a iniciativa. Se vê sempre esperando um passo do rapaz, que parece ciente de seu jogo e até interessado nele, mas tem mais o que fazer (levar a filha para casa ou cumprir alguma outra obrigação doméstica). Ela projeta a solução para a tensão sexual em imagens que se diluem na tela, dando o tom real de anticlímax desses encontros. Constrangedor, para não dizer meio patético.

No casamento, M. parece ter tudo que almeja. Boas conversas sobre literatura com John, a criação de uma filha feliz, um livro publicado, uma casa linda, tardes em volta da piscina comendo churrasco preparado por ele. Mas o que parece moderno a olho nu é antiquíssimo nas entrelinhas. A carne que John assa é temperada por ela antes, com sal e cominho. M. ainda escuta uma reclamação em vez de um muito obrigado. Mesmo que seu marido seja do tipo que cozinha, as cobranças são palpáveis — mesmo que seja para regar a horta orgânica cujo crédito da plantação fica todo para ele.

E se for para falar de casamento aberto, também não tem grandes vantagens. O único caso que ela afirma ter tido é com um colega pouco atraente. John pegou o campus inteirinho e segue pegando, mesmo enquanto M. batalha junto à reitoria para zelar pela imagem do marido.

Peraí, o cara pega todo mundo que quis, e tudo bem, é do pacto deles, mas quando o leite derrama é ela que tem que limpar o fogão?

Ficar com Vladimir seria um bálsamo de autoconfiança nesse turbilhão e até John percebe e apoia (com certo deboche) que ela consiga conquistar o rapaz. A questão é que (aqui vem spoiler) quando ela se vê sozinha com Vlad, o rapaz faz dela exatamente o que um marido tradicional nos anos 1950 faria com sua esposa. Sexo enfurecido e um passeio pelos quase dois metros de altura de gordura zero do mocinho? Não é bem disso que é feita a vida com um artista. Lá está M. tirando a calça jeans do cara da máquina de lavar e secando com cuidado, sem enfiar na secadora, como ele pediu. "Faz tempo que não cozinhavam para mim", ele diz, quando vibra por conseguir escrever mais na presença da possível amante. "Você me inspira", ele recompensa. Nada basta. Mas também, para fazer macarrão e colocar roupa no varal, eu prefiro ficar em casa.

É legal que as pessoas revejam seus contratos de relacionamento e, assim, consigam tratar de maneira mais honesta algo que é raro, mas acontece muito mesmo, como a traição. Porém, faz parte da descolonização dos afetos a descolonização da pia de louça. Ou vestido de moderninho, o casamento continua com a roupinha démodé do machismo. Não dá mais não.

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