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Por fim a maturidade, tão precocemente

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04.04.2026

Por fim a maturidade, tão precocemente

Não se preocupe, leitor, não é de mim que falo. Não usaria este espaço para alardear a minha própria maturidade, até porque ela me anda escassa. Aos 44 anos não disponho de nenhum dos atributos que costumamos associar aos seres maduros, não sou sábio ou sereno, não vejo em minha pele o mapa dos anos passados, não ando a contemplar entardeceres com ar nostálgico. Pelo contrário, há dias em que me sinto impulsivo, desregrado, inconsequente, caótico, dias em que me torno o lamentável tumulto da minha própria vida, dias em que procuro o ruído como se só nele pudesse ouvir a paz. Envelhecido ante todos os homens que já fui, ainda sou jovem demais.

Falo de uma pessoa bem mais equilibrada do que eu, mais cautelosa e responsável, uma pessoa de feições amenas e gestos ponderados. Falo de Tulipa, a minha filha de oito anos. Em meio aos alvoroços da existência, as iras e os risos da irmã, as verborrágicas angústias dos pais, ela se mantém plácida, inalterada, ainda que tão atenta ao que se passa ao redor. Não são só os meus olhos, outros o disseram com palavras semelhantes. Quem quer que conviva com ela, que passe uma manhã ao seu lado, sente o silêncio que dela emana, percebe o prazer com que ela se entrega às atividades mais brandas, a leituras sucessivas ou conversas delicadas. Ela tem alguma idade indefinida entre os quarenta e os sessenta, alguma vez ouvi, e estranhei o comentário porque nesse caso ela devia ser mais parecida a mim e ao meu caos.

Com alguma impaciência ela acompanha os conflitos dos colegas na escola, trazendo-nos notícias como se falasse de um bando de pessoas insensatas, beirando a insanidade. Os meninos ela tende a julgar agressivos, às vezes tolos. Das meninas ela costuma lamentar as sinuosas intrigas, os conflitos infinitos, julgando-as exaltadas demais. E, no entanto, ela não os abandona, ela sabe que não deve se isolar, faz-se uma criança sumamente gregária, não perde uma chance de estar entre os outros. Não perde a clareza, em seu caso bem mais sossegada que a minha, de que só em meio aos outros a vida alcança a sua graça.

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O leitor assíduo desta coluna pode ter notado que há tempos eu não falava sobre ela, personagem frequente alguns anos atrás. Cogito que já não a comente tanto justamente porque ela se tornou esse ser racional, sem as inocências próprias da infância que às vezes soam tão adoráveis. Algo da ingenuidade se perdeu, algo do estranhamento constante com que a criança encara o mundo. Minha impressão é de que agora ela compreende demais, embora tanto ainda tenha a aprender, embora tanta informação lhe falte. A impressão de que captou certa lógica geral, do mundo ou da linguagem, e nada mais pode absorver com espanto, apenas com curiosidade. Noto que escrevo essas palavras com alguma saudade de tempos que já não voltam.

Sempre me surpreende, então, quando num arroubo ela se põe a chorar. De súbito seus olhos se espremem, caem as comissuras de seus lábios, sua voz se parte, e então retornam as grandes aflições ou as discretas fúrias de anos anteriores. Confesso que nem sempre sei reagir a esses atos inesperados. Já me peguei a lhe perguntar por que diabos ela estava sendo tão infantil, apenas para ser recriminado pela interrogação absurda. É claro, sou obrigado a concordar, é claro que toda criança, enquanto criança, tem o direito irrevogável à sua própria infantilidade.

Mas me pergunto também se tudo isso não será transitório, se não se trata do silêncio que antecede uma explosão, ou ao menos um rumor maior. A adolescência se aproxima, afinal, e parece improvável que eu possa continuar a sustentar esses adjetivos todos quando seu corpo, sua língua, seu humor, sofrerem tal guinada. Avento uma hipótese disparatada que não sei se ouvi em algum lugar, o leitor saberá me informar. A hipótese de que uma vida inteira talvez se resuma nos primeiros dez anos de uma vida, que existe portanto uma maturidade da infância, e é isso o que estou vendo em minha filha. E me pergunto também, em contrapartida, se não estarei vivendo eu mesmo uma infância da maturidade, perdido por isso em tantos descaminhos.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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