Com eleição no radar, a 'turma do amor' turbina produção de narrativas
Com eleição no radar, a 'turma do amor' turbina produção de narrativas
Com a aproximação das eleições, a alta na desaprovação do governo, o salto na rejeição do presidente Lula e a queda em sua popularidade, os laboratórios de produção de narrativas do governo e do PT estão trabalhando em escala 24 x 7.
O objetivo é "demonizar" a oposição e gerar versões dos acontecimentos dóceis a Lula, em paralelo com a adoção de um pacote eleitoreiro de benesses, para tentar virar o jogo em favor do presidente.
A estratégia inclui a terceirização de responsabilidades em relação a medidas impopulares, como a chamada "taxa das blusinhas" e os juros estratosféricos, que levaram o endividamento e a inadimplência a níveis recordes e turbinaram a dívida pública do país.
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Há também um esforço visível para blindar Lula contra os escândalos do Banco Master e das fraudes bilionárias do INSS (leia abaixo em detalhes cinco narrativas propagadas recentemente por autoridades do governo e pela tropa de choque petista).
As ações seguem duas máximas que costumam marcar os movimentos de Lula e do PT quando se veem acuados. Uma é a de que "é preciso construir uma narrativa para destruir seu principal inimigo", como afirmou Lula ao ex-ditador Nicolás Maduro, da Venezuela, ao recebê-lo no Palácio do Planalto em maio de 2023.
Outra é a de que "nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição", como disse a ex-presidente Dilma Rousseff em 2013, em clima de campanha antecipada, ao entregar um conjunto habitacional na Paraíba.
O problema é que esta operação-hospital promovida pela "turma do amor" —que diz combater o "discurso de ódio" e que quer limitar a liberdade de expressão nas redes para conter a proliferação de "mentiras" contra Lula e o governo— virou um vale tudo, no qual a verdade quase sempre é deixada para trás.
Muitas vezes, as narrativas são meias-verdades, que contam apenas uma parte da história. Em outras, não passam de fake news, como a que foi propagada por Dilma na campanha de 2014, quando ela sugeriu que a proposta de autonomia do Banco Central defendida por Marina Silva, então candidata da Rede Sustentabilidade, levaria ao aumento de juros, ao desemprego e à redução da comida na mesa do povo. Nem o fato de Marina ser de esquerda, forjada das fileiras do PT, a poupou das "armas químicas" petistas.
O pior é que os autores das fake news e seus cúmplices não se tornam alvo de qualquer investigação ou punição. Nem de contestações pelas tais "agências de checagem", que se mostram tão diligentes quando as notícias falsas vêm do outro lado. Com frequência incômoda, ainda são reproduzidas sem qualquer filtro por grandes veículos de comunicação como se fossem verdades incontestáveis.
Confira a seguir algumas das narrativas (e fake news) propagadas pelo governo e pelo PT nas últimas semanas.
1. "A alta da taxa de juros não é causada pelo excesso de gastos"
A afirmação, feita pelo novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que substituiu Fernando Haddad no cargo, é uma das maiores falácias geradas pelo atual governo para tentar se isentar de responsabilidade pelos juros indecentes praticados no país. Ela já vinha sendo difundida por Haddad e agora foi encampada por Durigan, que, com isso, já mostra a que veio e por que foi escolhido como seu sucessor.
Apesar de o Banco Central ter autonomia hoje para praticar a política monetária, ao contrário do que ocorria em governos anteriores do PT, eles se "esquecem" de dizer que a escalada dos juros se deve às pressões inflacionárias geradas pelo aumento artificial da demanda, promovido pela gastança sem lastro do governo.
Ou seja, na verdade, o governo Lula é, sim, o grande responsável pela alta das taxas, ainda que de forma indireta, mesmo que o BC tenha sua independência garantida pela Constituição. Foi isso que garantiu o controle da inflação, embora a um custo elevadíssimo para o país, refletido na elevação da dívida pública, apesar da sabotagem fiscal do próprio governo.
2. "A 'taxa das blusinhas' não foi uma criação do governo do presidente Lula, mas dos governadores"
Esta declaração de Haddad é outra das meias verdades que o governo está propagando, para tentar se livrar da pecha de ter criado a "taxa das blusinhas", que se tornou um dos fatores de maior desgaste para Lula. Segundo pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada no fim de março, nada menos que 62% dos brasileiros consideram a taxação das comprinhas como o maior erro da atual gestão.
Apesar de Haddad agora querer terceirizar a responsabilidade para os governadores e o Congresso Nacional, toda a articulação para adoção da medida, que acabou com a isenção de impostos para compras internacionais de até US$ 50, foi dele.
Ecoando reclamações de empresários próximos a Lula, como Luiza Trajano, do Magazine Luíza, Haddad chegou a afirmar que a isenção representava uma concorrência desleal aos fabricantes nacionais. "O que o governo está fazendo é o combate ao contrabando. Alguém aqui é a favor do contrabando? Ninguém é a favor", disse na época. "O que nós vamos fazer é o combate ao contrabando digital", acrescentou, ao justificar o fim da isenção.
Foi Haddad quem criou o Remessa Conforme, que institucionalizou a taxação. Desenhado e implementado pela própria Fazenda, ele foi um pacto de arrecadação entre a União e os estados. Foi o ex-ministro também quem negociou diretamente com o Comsefaz (Comitê de Secretários de Fazenda dos Estados) a unificação nacional da alíquota de 17% de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) a ser cobrada dos consumidores na fonte.
No início, Haddad aceitou a manutenção da isenção de tributos federais às transações, em troca do pagamento do ICMS e da abertura dos dados das empresas (Shein, Shopee e AliExpress) para a Receita Federal. Em 2024, porém, isso mudou. Em negociação com o Congresso, o governo conseguiu aprovar a cobrança adicional de um Imposto de Importação de 20% sobre as comprinhas.
Até a primeira-dama Janja da Silva entrou no circuito para apoiar a taxação. "Tô aqui no avião com o Ministro Haddad que me explicou direitinho essa história da taxação", disse Janja na época, nas redes sociais. "Se trata de combater sonegação das empresas e não taxar as pessoas que compram", acrescentou, gerando forte reação dos internautas.
3. "O Flávio Bolsonaro vai acabar com o Pix"
Depois da acusação falsa de que o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) havia dito que o governo acabaria com o Pix, quando ele fez apenas um alerta sobre o efeito negativo que o monitoramento das transações pelo Fisco teria para os empreendedores, surgiu agora mais uma fake news envolvendo o sistema.
Desta vez, ela partiu do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) —ex-líder do governo na Câmara e um dos mais ativos propagadores das narrativas petistas— e foi espalhada por influenciadores ligados ao partido e a seus aliados.
Sem qualquer evidência de que o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, queira acabar com o Pix, Lindbergh publicou nas redes que isso vai acontecer se ele for eleito no pleito de outubro. Aproveitando-se das críticas do governo americano ao sistema e da proximidade do clã Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o deputado petista insinuou que Flávio será "pau mandado" da Casa Branca. Por meio de um vídeo publicado nas redes, o próprio Flávio expõs, com o uso de inteligência artificial (ChatGPT), a fake news de Lindbergh.
4. "O ladrão entrou na casa entre 2019 e 2022. Nós apenas acendemos a luz e pegamos ele com a mão na botija"
A frase do ministro Wolney Queiroz, da Previdência, é um exemplo emblemático da tentativa do governo e do PT de jogar no colo do governo Bolsonaro a culpa pelas fraudes bilionárias do INSS.
Mas a imagem bizarra de parlamentares do PT celebrando o fim da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do INSS, sorridentes e fazendo o L, fala mais do que qualquer narrativa. Desde quando as fraudes vieram à tona, o governo, os petistas e seus aliados trabalharam contra o funcionamento da CPMI. O governo chegou, inclusive, a pressionar o STF (Supremo Tribunal Federal) para não obrigar o Congresso a prorrogar seu funcionamento, como queria a oposição, em linha com a jurisprudência firmada pela Corte na época da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado.
É certo que, para minar as investigações, eles contaram com o apoio de lideranças do Congresso e de parlamentares do Centrão, cujas digitais surgiram durante as investigações. Contaram também com a colaboração do STF, que impediu quebras de sigilo e depoimentos considerados fundamentais para as investigações, como os de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e de José Ferreira da Silva, o Frei Chico —filho e irmão do presidente, por suas ligações com Antônio Carlos Antunes, o Careca do INSS, acusado de ser o grande articulador das falcatruas.
Embora as fraudes tenham crescido no governo Bolsonaro, elas começaram em 2015, segundo apuração da CPMI, em valores bem menores. Foi no governo Lula que as falcatruas explodiram. Saltaram de R$ 706 milhões em 2022 para R$ 1,3 bilhão em 2023 e R$ 2,8 bilhões em 2024, segundo dados da própria CGU (Controladoria-Geral da União), expondo a falta de controle e de fiscalização por parte do INSS e do Ministério da Previdência.
O governo Bolsonaro até tentou endurecer as regras do jogo, mas o PT foi o primeiro a gritar contra. Em 2019, ele editou uma Medida Provisória (MP 871), para reforçar o controle sobre a concessão de auxílio-reclusão e de pensões, que previa também a obrigatoriedade da revalidação anual dos descontos associativos realizados nos benefícios dos aposentados. Parlamentares do PT, de outros partidos de esquerda e do Centrão, no entanto, conseguiram afrouxar o dispositivo, que foi revogado totalmente em 2022, abrindo mais espaço para as fraudes.
Quando Bolsonaro vetou a suspensão da prova de vida presencial obrigatória, eles derrubaram o veto no Congresso, alegando que era "uma perseguição aos idosos". O mesmo aconteceu quando ele quis impedir a farra dos cartões de benefícios, que facilitavam as fraudes das associações e dos sindicatos no INSS, sob a alegação de iria "tirar o acesso ao crédito" dos mais pobres. Até contra o projeto que permitiria o cruzamento de dados para detectar fraudadores eles votaram.
5. "O escândalo do Banco Master é o 'ovo da serpente' de Bolsonaro e de Campos Neto"
Assim como no caso das fraudes do INSS, Lula, o PT e seus aliados estão fazendo o que podem —e o que não podem— para emplacar a narrativa de que o escândalo do Banco Master é culpa do Bolsonaro e de Roberto Campos Neto, ex-comandante do Banco Central, como fica evidente na frase dita recentemente pelo presidente.
Também como no caso do INSS, eles fizeram de tudo para evitar a criação da CPMI do Master —e, neste caso, conseguiram alcançar seu objetivo, com apoio de lideranças do Legislativo, parlamentares de diferentes partidos e do STF, que tem ao menos dois de seus ministros, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, sob suspeita de ter obtido vantagens das relações com o controlador do banco, Daniel Vorcaro.
Até agora, porém, faltam evidências para sustentar a versão propagada pelo governo e pelo PT. Apesar de o Banco Master ter sido autorizado a operar em 2019, seu crescimento fenomenal ocorreu no atual governo, quando seu patrimônio aumentou de R$ 400 milhões para R$ 15 bilhões. Foi também graças a um contrato contestadíssimo firmado com o governo da Bahia, pelo qual o Master obteve o monopólio para oferecer crédito consignado aos servidores do estado, que o banco ganhou musculatura.
Ao mesmo tempo, falta explicar de forma convincente o que foi tratado na reunião realizada no Palácio do Planalto em dezembro de 2024, entre Lula, Vorcaro, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, que estava prestes a assumir o cargo, o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que atuava como consultor do Master.
Falta explicar também o que teria levado o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, que participou das negociações com o Master na Bahia, a indicar a contratação de Mantega e do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, por Vorcaro pela bagatela de R$ 1 milhão e R$ 250 mil mensais, respectivamente.
Para completar, o governo Lula poderia esclarecer o contrato firmado pelo Ministério da Saúde com a farmacêutica Biomm, controlada pelo banqueiro, no valor de R$ 300 milhões, para fornecer, entre outras coisas, insulina ao governo por um prazo de até dez anos.
Enquanto não surgirem novas revelações que reforcem a acusação de que Campos Neto e o governo Bolsonaro são culpados pelo escândalo do Master e enquanto as relações de Lula e seus "companheiros" com Vorcaro não forem esclarecidas, não dá para levar a sério a narrativa petista.
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