China e EUA fazem de Munique ensaio para encontro de Xi e Trump
Jornalista, mestre em Estudos da China pela Academia Yenching (Universidade de Pequim) e em Assuntos Globais pela Universidade Tsinghua
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China e EUA fazem de Munique ensaio para encontro de Xi e Trump
Cidade alemã recebe anualmente Conferência de Segurança
Evento também será desculpa para que negociadores desenhem os próximos passos da visita de Trump a Pequim
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Todo ano a Alemanha sedia um dos eventos mais importantes na área de defesa, geopolítica e estratégia. A Conferência de Segurança de Munique é utilizada como plataforma de sincronia entre os dois lados do Atlântico e, desde 2022, como principal fórum para discutir o conflito na Ucrânia.
Nesta semana, ela serviu de desculpa para que os principais negociadores dos EUA e da China se encontrassem e desenhassem a agenda da visita de Donald Trump a Pequim. Depois de uma longa ligação entre os dois países na semana passada, a programação do encontro começou a ficar mais clara.
Trump gosta de destacar ter um "ótimo relacionamento" com Xi e tem vendido a viagem em abril como uma oportunidade de avançar em pontos-chave com a China. Mas a percepção em Pequim do seu poder pessoal e da janela de oportunidade para avançar em questões mais espinhosas podem frustrar o americano.
Da última vez que se viram, na Coreia do Sul, Xi e Trump assinaram não um acordo, mas uma trégua comercial de um ano que atrasou a implementação de tarifas que em dado momento chegaram a 150% contra produtos chineses.
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O texto incluiu redução de tarifas, a suspensão por um ano de controles chineses sobre exportações de terras raras e materiais críticos e a retomada de compras chinesas de soja americana, um alívio para fazendeiros pressionados pela guerra comercial. Pequim também aceitou aliviar algumas medidas punitivas contra empresas dos EUA e pausar taxas portuárias recíprocas.
Esses termos não neutralizaram o eixo central de tensão. Xi não pretende (nem pode) alterar sua posição sobre Taiwan, e Washington não garantiu limitação das futuras vendas de armas à ilha. O encontro em Busan foi, acima de tudo, um aperto de mão tático, desenhado para dar espaço político aos dois lados.
Abril, portanto, não deve produzir um "novo capítulo" na relação, mas o prolongamento do armistício. A extensão da trégua por mais um ano é o cenário mais plausível.
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Há certa urgência no cálculo. Com as eleições de meio de mandato no horizonte e a perspectiva de uma Câmara menos favorável, Trump tem incentivo para fechar algo concreto enquanto ainda dispõe de margem. Xi certamente se prepara para este cenário (e com certeza entende como a China costuma servir de espantalho na política doméstica americana, o que acelera a busca por pontos de conciliação).
Mas o risco continua sendo Taiwan. Novas vendas americanas de armas à ilha seguem como principal fator de descarrilamento. Se Washington avançar antes da visita, o custo político para os chineses em fechar qualquer acordo aumenta, e o espaço para distensão diminui.
Outro vetor relevante serão acordos de investimento entre empresas chinesas e americanas, especialmente em energia e cadeias de veículos elétricos e baterias. Em ano de eleição, Trump tem pressa para mostrar números e arranjos híbridos, semelhantes ao modelo negociado em torno do TikTok em que empresas americanas e um controlador chinês atuam lado a lado.
A visita de abril não decidirá o rumo da relação entre as duas potências. Mas revelará algo mais concreto: até que ponto Washington está disposto a modular Taiwan em troca de estabilidade econômica —e até que ponto Pequim aceita tal concessão sem resolver sua principal disputa estratégica.
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