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Entre tradição e ciência: por que controlar cabeceio é uma decisão prudente

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27.02.2026

Entre tradição e ciência: por que controlar cabeceio é uma decisão prudente

*Por André Fujita, especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil)

A decisão de entidades inglesas de discutir limites para cabeceios no futebol recoloca no centro do debate um tema que a ciência vem amadurecendo há mais de uma década: o impacto cumulativo de choques repetidos na cabeça ao longo da carreira de um atleta.

As novas orientações da Professional Footballers' Association (PFA), entidade que representa jogadores e ex-jogadores da Premier League, da FA Women's Super League e de outras ligas do futebol inglês, passam a recomendar que os atletas realizem no máximo 10 cabeceios por semana, já considerando as atividades de treino. No caso de crianças com menos de 12 anos, a entidade orienta que não haja cabeceio, dentro de um protocolo preventivo criado para diminuir a exposição acumulada a impactos na cabeça ao longo da carreira.

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Essas diretrizes integram um dos primeiros esforços estruturados de redução de risco associados à ETC (Encefalopatia Traumática Crônica), condição degenerativa associada à repetição de traumas cranianos. A iniciativa amplia o debate sobre concussões, incluindo também os possíveis efeitos de impactos considerados mais leves, como aqueles provocados pelo ato de cabecear a bola.

No entanto, é importante esclarecer desde o início: o problema não é o cabeceio isolado. O ponto central é a dose acumulada de impactos intencionais, como o gesto técnico do cabeceio, e não intencionais, como choques cabeça com cabeça, cotoveladas, quedas ou colisões com a trave. Muitas vezes, inclusive, esses contatos são mais intensos do que o próprio impacto da bola.

Os chamados impactos subconcussivos, aqueles que não geram sintomas clínicos claros de concussão, podem provocar alterações transitórias difíceis de detectar no curto prazo. Mudanças sutis em marcadores neurofisiológicos, biomarcadores ou exames de neuroimagem vêm sendo descritas na literatura científica. Ao longo dos anos, em grupos com alta exposição, especialmente atletas profissionais, essas alterações cognitivas, comportamentais ou funcionais descritas em populações altamente expostas.

As revisões científicas mais recentes, que estão no topo da hierarquia das evidências, apontam para essa associação. Ao mesmo tempo, deixam claro que a qualidade da evidência ainda é moderada a baixa, com grande heterogeneidade metodológica. Não há, hoje, como estabelecer uma relação direta de causa e efeito, tampouco definir um "número seguro" de cabeceios por semana ou por carreira. O que existe é um consenso crescente de que maior volume acumulado de impactos está associado a maior probabilidade de alterações futuras.

Diante desse cenário, a resposta mais prudente é a gestão de risco.

O treino é o ambiente onde conseguimos controlar a dose: volume de cabeceios, tipo de estímulo, distância e velocidade da bola, técnica empregada, nível de fadiga. O raciocínio é o mesmo que utilizamos ao prescrever carga para músculos, tendões ou articulações. Se reduzimos a exposição repetida, especialmente em cérebros em desenvolvimento, reduzimos o input mecânico cumulativo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a US Soccer implementou diretrizes que proíbem o treino de cabeceio para atletas abaixo de 11 anos e limitam tempo e número de repetições em faixas etárias subsequentes. Não se trata de afirmar que "15 cabeceios por semana são seguros", mas de aplicar o princípio da precaução.

Do ponto de vista de saúde pública, restringir mais nas categorias de base tende a ser uma decisão defensável por três razões: o cérebro está em desenvolvimento e é mais vulnerável; atrasar a exposição reduz a carga acumulada ao longo da vida esportiva; e praticamente todas as capacidades técnicas envolvidas no cabeceio, leitura de trajetória, posicionamento, impulsão, tempo de bola, podem ser treinadas com impacto mínimo ou controlado.

Isso não significa descaracterizar o futebol. Significa evoluir na forma como cuidamos dos atletas. Há 20 anos, o controle de carga física era rudimentar. Hoje, é sofisticado. Monitoramos minutos jogados, intensidade e recuperação. Precisamos aplicar a mesma lógica à cabeça: menos impacto, menos força, menos vezes e, quanto mais tarde, melhor.

Medidas práticas são possíveis: periodizar o treino de cabeceio, usar bolas mais leves ou trajetórias mais curtas na iniciação, priorizar técnica antes da fadiga, reforçar critérios de segurança em disputas aéreas, integrar exercícios de tronco e pescoço como complemento preventivo. O fortalecimento cervical pode funcionar como um "airbag parcial" contribuindo para o controle da aceleração da cabeça, mas o verdadeiro "cinto de segurança" continua sendo a redução da exposição.

No profissional, faz sentido controlar o volume de cabeceios no treino. Na base, o controle é ainda mais justificável. O custo de errar por excesso é alto demais quando falamos de cérebros em desenvolvimento.

Não vejo a discussão proposta na Inglaterra como um ataque à essência do jogo. Na verdade, é um passo natural de um esporte que amadurece à luz da ciência. Proteger o cérebro também faz parte do futebol.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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