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Por que radiotelescópio no sertão paraibano virou alvo do Congresso dos EUA

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04.03.2026

Por que radiotelescópio no sertão paraibano virou alvo do Congresso dos EUA

Um relatório produzido pelo Congresso dos EUA aponta que um radiotelescópio que será montado ainda este ano no município de Aguiar (no sertão da Paraíba) poderia ser usado pela China contra o país norte-americano.

O documento traz uma análise das investigações do Comitê Seleto sobre a atividade chinesa na América Latina. Segundo o texto, Pequim estaria usando infraestrutura espacial para coletar inteligência adversária e fortalecer futuras capacidades de combate.

A citação ao radiotelescópio BINGO pegou de surpresa pesquisadores brasileiros, que descartam a hipótese levantada pelos EUA e afirmam que o projeto é brasileiro, será comandado pelo Brasil e tem finalidade exclusivamente científica.

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O BINGO (sigla em inglês para Oscilações Acústicas de Bárion de Observações Integradas de Gás Neutro) é um projeto liderado pela USP (Universidade de São Paulo), com participação de outras instituições:

INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais);

UFCG (Universidade Federal de Campina Grande);

Universidades de Yangzhou, Shanghai Jiao Tong e Observatório Astronômico de Shangai (China);

Universidade de Manchester (Inglaterra)

O radiotelescópio vai "escutar" o passado e ajudar cientistas a entender o que é a energia escura, responsável por acelerar a expansão do universo. Para isso, será capaz de detectar as BAO (Oscilações Acústicas de Bárion) por meio de ondas de rádio —algo inédito no mundo.

O sertão paraibano foi escolhido devido à baixa interferência de sinais de rádio produzidos pelo homem. Para chegar ao ponto ideal, cientistas passaram cerca de seis meses visitando mais de 30 locais no Uruguai e no Brasil, percorrendo 2.700 quilômetros, até definirem a Serra do Urubu.

O que diz o documento dos EUA

Segundo o relatório, a China estaria se aproveitando de países da América Latina para "promover a defesa estratégica espacial do Exército Popular de Libertação, fortalecendo ainda mais as capacidades de coleta de informações e contra-espaço".

A menção ao Bingo aparece no capítulo três, que trata de uma rede de infraestrutura espacial de suposta dupla utilização na América Latina. O documento cita 11 instalações espaciais na Argentina, Venezuela, Bolívia, Chile e Brasil.

O relatório afirma que o BINGO foi o ponto de partida para a criação do Laboratório Conjunto China-Brasil para tecnologia em radioastronomia. Este laboratório foi criado a partir de um acordo entre a UFCG, a UFPB (Universidade Federal da Paraíba) e o Instituto de Pesquisa em Comunicação da Rede de Ciência e Tecnologia Elétrica da China (CESTNCRI).

"Como o CESTNCRI está profundamente integrado à base industrial de defesa da China, as aplicações tecnológicas mais amplas desses sistemas de observação do espaço profundo podem ter capacidades de uso duplo para inteligência militar, SSA e rastreamento de alvos não cooperativos", diz o texto.

O radiotelescópio, lembra o relatório, foi projetado para mapear o céu "ao longo de vários anos, permitindo ampla área de levantamento para cosmologia de precisão".

"A missão científica do Telescópio BINGO é caracterizada pela detecção de gás neutro, como hidrogênio atômico, e para alcançar isso, o telescópio deve filtrar agressivamente a Interferência de Radiofrequência Artificial [RFI]", completa.

O analisador de Fourier [ferramenta que converte sinais] do sistema atua como um espectrômetro digital que digitaliza e categoriza esses sinais. Embora os astrônomos vejam esses sinais como 'lixo' a ser subtraído para observar o universo primitivo, os algoritmos de alto desempenho usados no sistema poderiam ser capazes de interceptar, classificar e isolar pulsos de radar militar, telemetria de satélite e atividades de guerra eletrônica com extrema sensibilidade.Relatório dos EUA

China teve papel menor

Segundo Carlos Alexandre Wuensche, pesquisador principal do INPE, o BINGO é um projeto cuja concepção original é da Universidade de Manchester e que foi significativamente alterado pelas equipes brasileiras, com projeto, gerência e boa parte do desenvolvimento sendo feitos aqui.

A alegação de que o BINGO foi feito para uso da China, diz, "não faz nenhum sentido".

"A China fabricou os espelhos e as estruturas, subsistemas que poderiam ser feitos no Brasil: há uma empresa que faz isso no Paraná, mas o custo não era competitivo. Ou seja, a China é e foi uma parceira que forneceu, com preços muito mais competitivos, subsistemas que o Brasil tinha —e tem— capacidade para produzir", afirma.

Ele explica que algoritmos de alto desempenho, como os utilizados no BINGO, podem separar sinais. "Mas daí isso virar uma ferramenta de uso dual tem muita chão a ser percorrido. A citação é uma coisa premeditada, mas que apenas aponta um vago risco".

Qualquer instrumento que aponta para o espaço recebe sinais, seja do universo, seja do planeta, seja produzido pelo homem. Então, em princípio, todos podem ter uso dual, mas esse uso não é interesse nosso [cientistas], não é interesse brasileiro e, até onde saiba, nenhum dos nossos parceiros tem esse interesse.Carlos Wuensche

Outro ponto questionado por ele é o espectrômetro citado no relatório. "Na radioastronomia pelo mundo, esse tipo de analisador de Fourier é usado por muitos radiotelescópios, não tem nada de extraordinário nele. No BINGO, ele foi comprado de uma empresa da África do Sul. O que o relatório cita, qualquer outro radiotelescópio, em princípio, poderia fazer", pontua.

O pesquisador afirma ainda que o documento faz confusão sobre a finalidade do laboratório do projeto. "Trata-se de uma iniciativa do governo da Paraíba para desenvolver um centro de astronomia, mas que não está necessariamente ligado ao BINGO. Ele foi feito, entre outras coisas, para estimular a ciência".

Previsão para setembro

Segundo Carlos, após ajustes no cronograma inicial (que previa instalação em 2024), todos os equipamentos do BINGO já estão prontos e aguardam apenas a finalização das obras de engenharia no local.

"Tudo que precisamos já está no Brasil, seja no sítio, no INPE ou na UFCG. A previsão é que em setembro devemos ligar o BINGO para começar o processo que chamamos de comissionamento, em que o comportamento inicial do telescópio é analisado e vários ajustes são feitos antes de ele começar a produzir dados científicos, de fato", explica.

Ele afirma que, até o momento, foram gastos cerca de R$ 40 milhões. O projeto é majoritariamente financiado via Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e pelo governo da Paraíba, com contribuições da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

Sobre os recursos para garantir a operação do instrumento após a instalação e comissionamento, Carlos afirma que isso ainda será avaliado, tanto em relação ao valor necessário quanto ao rateio entre as entidades parceiras.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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