Por que mentimos? Assim como prometer e perdoar, é o que nos torna humanos
Por que mentimos? Assim como prometer e perdoar, é o que nos torna humanos
Este é o episódio 2 da série sobre mentira. Leia aqui o Episódio 1: Como a mentira se tornou ferramenta de sobrevivência na era digital.
Episódio 2: Por que mentimos?
Assim como prometer e perdoar, mentir é o que nos torna humanos. Os animais não mentem; eles enganam (a fêmea do chupim põe seus ovos em ninho alheio), tapeiam (a borboleta mimetiza as usas para imitar os olhos de um predador) ou disfarçam (peixes se recobrem de algas ou ursos criam pegadas falsas).
Mas, os humanos sabem que podem contar com o uso simbólico da linguagem para enganar o outro.
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Há uma história grega que ilustra bem isso: Zeuxis e Parrásio se desafiam para saber quem é o melhor pintor. Zeuxis pinta grãos de milho tão perfeitos que são capazes de atrair pardais verdadeiros, que tentam bicá-los. Depois deste feito, ele se vira para Parrásio e pergunta: "E você, que pintura esconde atrás desta cortina?". A pintura de Parrásio era a própria cortina.
Enquanto um engana pardais, o outro engana seres humanos: este é o verdadeiro pintor e o verdadeiro mentiroso.
A paralinguística, que é a disciplina que estuda a linguagem não verbal, os sinais corporais, o tom de voz e o estilo de dizer, diz que há sinais que denunciam a mentira — que podem variar muito de cultura para cultura e de pessoa para pessoa, podem ser aprendidos e neutralizados pelos profissionais, mas que são:
Falar mais alto ou mais depressa;
Desviar o olhar de seu interlocutor;
Morder os lábios ou suar mais do que o normal;
Usar e repetir expressões como "de fato" ou "você não acredita em mim?";
Aumentar a frequência de indicadores de ansiedade (tocar o rosto, balançar os pés, coçar-se, mostrar as palmas das mãos ou mexer no cabelo).
Nenhum sinal isolado é prova de mentira. Mesmo para especialistas treinados, a taxa de acerto na detecção fica em torno de 54% — ou seja, pouco mais que o chute ao acaso.
Ainda é preciso distinguir tipos e funções da mentira:
Mentimos porque precisamos descobrir a verdade.
Mentimos para ser/ter o que não somos/temos, para tirar a vida da banalidade (embora o excesso torne a vida quase insuportável).
Mentimos para descobrir o que temos e somos coletivamente (chegar na "verdade" sobre nosso lugar em relação ao outro).
Mentimos para passar do desejo de reconhecimento para o reconhecimento do desejo (mentira como estratégia de sedução, ironia e poesia).
Mentimos porque nos alienamos ao desejo do outro, ou seja, queremos adivinhar o que nos tornará amáveis, adequados e interessantes.
A mentira é um ensaio de viver outras vidas e nos tornar outras pessoas, que envolve teatro, dança, lúdico e sexo. Ou seja, é um exercício da fantasia, de cujas regras para construir e encobrir nos levam à verdade.
Uma história clássica parece conter a essência humana da mentira:........
