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Peça usa comédia para revelar crimes na fundação de São Paulo

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03.02.2026

O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes

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Atores em cena da montagem que tem dramaturgia e direção de Marcos Damigo - Heloisa Bortz / Divulgação

Em "Entre a Cruz e os Canibais", o dramaturgo e diretor Marcos Damigo conduz o espectador a um mergulho ácido e humorístico nas origens de São Paulo. A peça, ambientada na Vila de São Paulo de Piratininga em 1599, desmonta com ferocidade cômica o mito do bandeirante heróico, revelando as fraturas, a ganância e os crimes que marcaram o início da colonização no planalto. Uma sátira política afiada.

Damigo elege a farsa e o escárnio como ferramentas para expor o "desajuste" entre o projeto civilizatório europeu e a realidade brutal da colonização, marcada pela escravização indígena. O riso, aqui, é instrumento de crítica que despoja o passado de qualquer aura romântica.

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Quatro personagens representam as estruturas de poder em uma colônia precária e violenta. O Juiz, vivido por José Rubens Chachá, encarna a autoridade falida, um homem que tenta impor leis que ninguém respeita. Ao seu lado, o Vereador, interpretado por Fábio Espósito, é a força do caos e da ganância local, personificando a elite que constrói seu poder sobre o apresamento ilegal de indígenas. Entre eles, surge o Procurador, de Daniel Costa, um degredado cínico e sobrevivente, com um pé em cada mundo, conhecedor tanto das leis da Coroa quanto dos povos originários. Por fim, Dom Francisco de Souza, o Governador-geral trazido por Thiago Claro França, representa o poder metropolitano, astuto e predatório, mais interessado em explorar o conflito do que em resolvê-lo.

Através das interações desses arquétipos, a peça argumenta que a grandeza paulista nasceu não de um heroísmo épico, mas de atos de violência e desespero em uma vila pobre e isolada. Damigo resgata uma visão histórica que precedeu o século 19: a de que os bandeirantes eram, em sua própria época, frequentemente vistos como homens brutos e destrutivos. Sua transformação em símbolos nacionais veio depois, para atender aos interesses da elite cafeeira, que precisava de uma........

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