Espetáculo julga assassinato simbólico da poeta Wislawa Szymborska
O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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Espetáculo julga assassinato simbólico da poeta Wislawa Szymborska
Clara Carvalho e Vera Zimmermann encenam embate entre força bruta e lirismo
Montagem conecta traumas da Europa pós-guerra com desmonte cultural no país
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Vera Zimmermann e Clara Carvalho fazem a peça 'Projeto Wislawa', inspirada em poesias da polonesa Wislawa Szymborska - João Caldas / Divulgação
Uma mulher é condenada à morte pelo assassinato da poeta polonesa Wislawa Szymborska. Na realidade factual, a Nobel de Literatura de 1996 faleceu serenamente enquanto dormia, aos 88 anos. É a partir desta premissa ficcional e provocadora que o diretor Cesar Ribeiro edifica "Projeto Wislawa": um dispositivo cênico para investigar as razões pelas quais a contemporaneidade insiste em eliminar a poesia e o pensamento crítico do mundo.
O espetáculo utiliza a obra da poeta para construir um tribunal simbólico. A ré, interpretada por Clara Carvalho, não atentou contra uma pessoa física, mas contra um ideal de lirismo e sensibilidade. No banco dos réus, o que se julga é a nossa capacidade sistêmica de produzir violência e intolerância. A montagem transita com fluidez entre os traumas da história europeia do pós-guerra e as feridas abertas da sociedade brasileira atual, estabelecendo um paralelo direto com o recente período de desmonte das políticas culturais no Brasil durante o governo de Jair Bolsonaro.
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Szymborska viveu sob a dualidade das opressões que definiram o século 20: a ocupação nazista e o stalinismo na Polônia. Essa vivência forjou nela uma "poética da dúvida", avessa a certezas absolutas e discursos totalizantes. Cesar Ribeiro captura essa essência ao observar traumas históricos através do detalhe cotidiano. A dramaturgia entrelaça poemas icônicos, como "Fotografia de 11 de Setembro" e "Primeira Foto de Hitler", em uma estrutura fragmentada. Aqui, a História não é narrada pela épica oficial dos vencedores, mas pelo registro sensível de corpos anônimos e instantes banais que precedem a tragédia.
A estética do grupo Garagem 21 é marcada por um rigor formal que nunca sacrifica a comunicação. Em "Projeto Wislawa", a visualidade bebe da fonte das histórias em quadrinhos e dos desenhos animados. As atrizes Clara Carvalho e Vera Zimmermann vestem-se de preto sobre um chão de linóleo branco, operando como figuras bidimensionais que ganham tridimensionalidade conforme a luz as esculpe.
A iluminação de Rodrigo Palmieri utiliza o vermelho de forma sistêmica, redefinindo a geografia da cena nos momentos de clímax. A cenografia de J. C. Serroni reduz o embate a dois objetos de carga simbólica avassaladora: uma cadeira elétrica e um carrinho de bebê. O dispositivo de execução e o símbolo do nascimento estabelecem, sem necessidade de discurso verbal, a tensão central da poesia de Szymborska — a vida que teima em persistir entre os escombros.
No centro do palco, a técnica é exposta: operadores de som e luz trabalham à vista do público, com o diretor entre eles. Ribeiro, que também assina a trilha sonora, expõe os aparatos para exigir do espectador uma leitura ativa. A música moderna e os recursos audiovisuais constroem uma atmosfera de investigação sobre a desumanização.
O embate entre as atrizes é de alta voltagem. Clara Carvalho materializa a força bruta que busca desqualificar a arte, enquanto Vera Zimmermann transita entre a narradora, a própria poeta e outras figuras satíricas, trazendo um timing cômico preciso que dá corpo ao sarcasmo contido na obra da polonesa. O figurino de Telumi Hellen e o visagismo de Louise Helène completam o desenho "pop-noir": óculos escuros, guarda-chuvas transparentes e pétalas de plástico criam imagens de impacto imediato.
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"Projeto Wislawa" investiga como o mal se infiltra na linguagem aparentemente inocente e nas escolhas cotidianas que sustentam sistemas autoritários. A pergunta que atravessa a montagem é urgente: qual é a nossa responsabilidade quando abrimos mão da ambiguidade e da empatia em favor de dogmas? A resposta, construída em parceria com a poesia da Nobel, reafirma que a arte não é um enfeite supérfluo, mas o único enquadramento capaz de dar sentido a um mundo marcado por guerras e pelo consumismo desenfreado.
No espetáculo, você cria a ficção de que Wislawa Szymborska foi assassinada, subvertendo sua morte real e pacífica aos 88 anos. Como essa escolha de "matar a poeta" no palco ajuda a materializar a tese da peça sobre a tentativa permanente de desqualificar a sensibilidade e a arte na sociedade contemporânea?
O ponto de partida foi o desejo de trabalhar a poesia de Wislawa Szymborska, que divido entre o olhar sobre o cotidiano e a estrutura global da violência (theatrum mundi). Devido à brevidade dos poemas, criei um fio condutor para evitar uma mera reunião de textos. A dramaturgia reproduz a sensibilidade política e irônica da autora, fundindo texto e poesia, exceto quando os poemas são anunciados ao microfone.
A peça desdobra minha pesquisa sobre sistemas de violência (presente em montagens anteriores como "Esperando Godot" e "Trilogia Kafka"), focando agora na capacidade de seres vivos matarem outros seres vivos. Após "Projeto Clarice", migrei para uma perspectiva feminina e menos centrada no embate direto. Diante da ascensão da extrema-direita, a obra reflete sobre o assassinato da sensibilidade e da arte através da história fictícia da morte da poeta.
Poemas como "Fotografia de 11 de Setembro" e "Primeira Foto de Hitler" ocupam lugares estratégicos na peça. Como foi o processo de selecionar esses textos específicos para servirem como motores da ação e como eles ajudam a revelar o "mal que se infiltra no cotidiano"?
Interessa-me o percurso da violência que se confunde com a própria civilização. Utilizo poemas como "Fotografia de 11 de Setembro", que paralisa a queda dos corpos, e "Primeira Foto de Hitler", que confronta o bebê com o tirano futuro, para refletir sobre como alguém se torna um impedimento à vida do outro.
Abordo diretamente o pensamento conservador que pressupõe a destruição de outras formas de vida para validar seu ideal de mundo. Na peça, as figuras que cercam Wislawa contrastam com a "assassina", que mata a poeta por não conseguir lidar com a poesia — aqui utilizada como signo para a profundidade e a multiplicidade dos modos de vida. O objetivo é questionar a lógica do extermínio em prol das possibilidades de viver.
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O "Projeto Wislawa" sucede seus trabalhos sobre Kafka, Clarice Lispector e Beckett. De que maneira a poética do "detalhe" e do "gesto invisível" de Szymborska alterou sua investigação anterior sobre os sistemas de violência e poder?
Minha escrita, presente desde o início da carreira em 1994, privilegia uma linguagem metafórica, não realista e com desvios narrativos. Em "Projeto Wislawa", a estrutura é simples: uma assassina condenada anuncia que contará como matou a poeta, mas divaga sobre si mesma. Esses desvios revelam o patético da existência e o individualismo da pós-modernidade.
Essa atenção ao detalhe e ao cotidiano é uma progressão natural da minha pesquisa, que passou pela repressão em Kafka e pelas epifanias de Clarice Lispector. O trabalho busca novos ângulos para entender como chegamos ao presente e quais futuros são possíveis, especialmente frente a movimentos políticos contemporâneos que buscam impedir a existência do outro.
Teatro Paulo Eiró - av. Adolfo Pinheiro, 765 - Santo Amaro, região sul. Qui. a sáb., 20h. Dom., 19h. Até 1º/3. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ingressos presenciais (R$ 20) 1h antes do início do espetáculo na bilheteria e online em sympla.com.br
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