Cia. Bípede celebra arte como resistência à censura
O teatro e seus fazedores, por Andre Marcondes
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Os atores Leo Milani, Luigi Dolder, Julia Terron e Benedito Teixeira em cena de 'Censura e Fogo' - Andre Marcondes / Folhapress
A companhia Bípede de Teatro Rupestre opera como um grupo de arqueólogos do presente. Desde 2020, eles escavam os estratos da tradição teatral – Tchékhov, Górki – buscando pistas vitais sobre os "próximos bípedes" que herdarão o mundo. Sua marca é um hibridismo visceral, onde o drama sério colide com a palhaçaria, e a bufonaria se funde à música ao vivo. Após cinco anos escavando o passado, sua descoberta mais urgente é o agora.
"Censura e Fogo: Cinzas que Sobraram", seu primeiro trabalho original, é um artefato extraído do concreto rachado de São Paulo. O dramaturgo Leo Milani ancora a peça em um fato real: o fechamento arbitrário de um boteco, refúgio de estudantes de teatro e dissidentes. Menos documentário e mais "estudo de caso" transformado em manifesto-festa.
A encenação de Felipe Sales abraça essa precariedade com um ethos punk, uma estética "faça você mesmo" que transforma limitação em força. Cenário e figurinos são customizados, remendados, reaproveitados. A iluminação de Gil Teixeira revela texturas de desgaste, uma beleza nascida da resistência. É uma arqueologia do instante, a busca por marcas singulares em um mundo descartável.
A dramaturgia fragmentada de Milani captura a agilidade do vaudeville. Cenas curtas pintam o boteco como microcosmo do Brasil: o trabalhador apático, o político oportunista, o policial autoritário e os jovens artistas que insistem em existir. Os cinco atores-criadores – Benedito Teixeira, Felipe Sales, Júlia Terron, Milani e Luigi Dolder – deslizam entre arquétipos e depoimentos pessoais com........
