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Quem vai pagar pelo conteúdo que a IA engole e não devolve?

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02.04.2026

Quem vai pagar pelo conteúdo que a IA engole e não devolve?

A internet baseada em links, cliques e tráfego está acabando. O SxSW 2026, realizado em março em Austin (Texas), expôs a ruptura do modelo que sustentou a economia digital da mídia nas últimas duas décadas. Além de tecnológica, essa mudança propõe uma reconfiguração estrutural na forma como a informação é distribuída, descoberta e monetizada.

Durante anos, o ciclo funcionou: publique, otimize, distribua, capture atenção e monetize. Plataformas indexavam conteúdo, usuários navegavam por links, produtores capturavam valor. O que entra em crise é essa reciprocidade mínima.

Quando o sistema de IA responde no lugar de encaminhar, treina no lugar de licenciar e resume no lugar de remunerar, o conteúdo continua sendo produzido, mas o circuito de captura de valor se rompe. A demanda não desaparece, mas a previsibilidade econômica de quem produz conteúdo some. Estamos diante da substituição de uma economia da navegação por uma economia da resposta.

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Nessa nova lógica, o gargalo deixa de ser publicar e passa a ser encontrado, citado, remunerado e considerado confiável dentro de sistemas mediados por agentes de IA, que decidem o que aparece, o que é sintetizado e o que simplesmente deixa de existir para o usuário. Quando não há clique, não há tráfego. E quando não há tráfego, não há modelo econômico previsível. A disputa deixa de ser por audiência direta e passa a ser por presença dentro das respostas geradas por esses sistemas.

Amy Webb, futurista e fundadora do Future Today Institute, sintetizou o ambiente ao declarar que a IA virou infraestrutura. É preciso entender como forças tecnológicas, econômicas, regulatórias e comportamentais convergem e tornam certas rupturas inevitáveis. O pensamento linear de tendência-por-tendência já não captura a velocidade das mudanças em curso.

Jonah Peretti, fundador da BuzzFeed, trouxe um diagnóstico duro: a mídia sofre uma comoditização em duas frentes. A internet destruiu o monopólio da distribuição e a IA generativa destrói o valor diferencial da produção ao baratear radicalmente a criação de conteúdo. O valor escapa das empresas de mídia e sobe para plataformas e infraestruturas tecnológicas.

Peretti propõe que a escassez futura estará em gosto, cultura e comunidade. Ele chamou certas redes sociais de "produtos de valor negativo", sistemas tão viciantes que os próprios usuários pagariam para que deixassem de existir.

Esse esgotamento se desdobra na fadiga de conteúdo. A capacidade de produção cresceu exponencialmente com a IA generativa, mas a capacidade humana de absorção não acompanhou. O resultado é a produção de lixo informacional, o chamado "slop", e a indistinguibilidade: quando tudo pode ser gerado e distribuído a custo quase zero, a superabundância deixa de ser vantagem e vira poluição cultural.

Sessões sobre publicidade, entretenimento e jornalismo convergiram no alerta de que a escala da IA pressiona tudo para a média. O diferencial humano passa a estar em curadoria, repertório, emoção, gosto e contexto, que são atributos que não se escalam por automação.

O conceito de "Internet After Search" (internet depois da busca) foi o tema mais recorrente do festival. Matthew Prince, CEO da Cloudflare, sustenta que o modelo da internet entra em colapso quando a interface deixa de ser uma página e passa a ser uma resposta mediada por IA.

Bots não clicam em anúncios, e usuários confiam cada vez mais em respostas sintetizadas sem visitar a fonte. Prince projeta que, em 2027, o tráfego de bots ultrapassará o tráfego humano na web e propõe que empresas de mídia migrem para modelos de licenciamento de conteúdo original, único e legível por máquina. O que a mídia vendia como audiência talvez precise ser vendido como matéria-prima confiável para sistemas de IA.

A migração do valor da distribuição para a fonte do conteúdo foi um padrão recorrente nos painéis. A disputa deixa de ser apenas por ranking nos buscadores e passa a ser por citabilidade algorítmica, que é a capacidade de ser encontrado, referenciado e remunerado dentro de sistemas de IA.

No The New York Times, Zach Seward descreveu um uso de IA concentrado em resolver a sobrecarga do jornalismo investigativo, com busca semântica, OCR avançado, visão computacional e desduplicação de documentos censurados. A recomendação é começar pelo problema jornalístico, não pela ferramenta, e manter a supervisão humana como condição inegociável.

Uma das perguntas mais prospectivas do festival foi: quem controla a distribuição quando um agente de IA está entre marca e cliente ou entre reportagem e audiência? A IA deixou de ser ferramenta de produção para se tornar camada de mediação, mudando as relações de poder em toda a cadeia.

A confiança emergiu como macrotema transversal. Mark Cuban distinguiu modelos de linguagem transparentes de algoritmos opacos, perguntando se o público terá como auditar a mediação da IA.

Lucy Blakiston, CEO da mídia para jovens SYSCA, defendeu uma postura de presumir falsidade até prova em contrário como ponto de partida na era generativa. A confiança não é atributo herdado nem marca institucional automática, mas precisa ser construída e verificável. A sobrevivência do jornalismo depende menos de vencer o algoritmo e mais de reconstruir comunidades de confiança.

A jornalista Kara Swisher descreveu um cenário em que instituições legadas sofrem ataques financeiros, regulatórios e políticos, enquanto o talento migra para plataformas independentes.

O público jovem busca autenticidade e proximidade, mas criadores não substituem o jornalismo. O ecossistema foi reconfigurado, com o comentário competindo com a reportagem pela atenção. A independência do criador é frequentemente ilusória, já que ele também depende de patrocínios e opacidade algorítmica.

Quando distribuição e produção viram commodity, o ativo mais defensável é o vínculo recorrente com um público que reconhece uma voz, uma utilidade ou um sistema de valores. Isso explica o peso que newsletters, podcasts e espaços proprietários ganharam nas discussões.

Mas o modelo de comunidade e nicho funciona para parte do mercado, não necessariamente para todo o ecossistema. Um veículo local ou um projeto investigativo caro não se convertem automaticamente em comunidade monetizável. O salto do diagnóstico para a sustentabilidade permanece mais aspiracional do que comprovado.

No campo regulatório, vários painéis pediram transparência algorítmica, novos modelos de licenciamento e combate à extração predatória do conhecimento aberto, mas o festival não chegou a um consenso. Sem framework regulatório, a tese do conteúdo original como ativo licenciável permanece promissora, mas incompleta.

O conjunto do que foi debatido permite desenhar três cenários. No mais provável, a mídia se fragmenta, mas não desaparece, operando em arquiteturas híbridas com receita recomposta por assinatura, patrocínio direto e licenciamento.

No mais pessimista, a descoberta algorítmica concentra ainda mais poder nas plataformas de IA, a receita publicitária se deteriora e boa parte da mídia intermediária entra em colapso. No mais construtivo, a pressão da crise força inovação regulatória e novos padrões de atribuição, com a mídia encontrando sustentabilidade como fornecedora de contexto, verificação e dados originais.

O SxSW 2026 não decretou o fim da mídia, mas iluminou o esgotamento de quem acreditava que bastava publicar, distribuir e monetizar fluxo. A busca já não garante descoberta, o feed já não garante confiança, a escala já não garante diferenciação, a produção já não garante valor. O que sobra é o mais difícil de automatizar: fonte original, julgamento, contexto, gosto, comunidade, autoridade verificável e relação direta. A grande pergunta é quem continuará sendo procurado, citado, pago e acreditado quando quase tudo puder ser gerado por inteligência artificial.

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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