Flávio Bolsonaro contra Lula, Eduardo contra todos
Flávio Bolsonaro contra Lula, Eduardo contra todos
Flávio Bolsonaro é um político de centrão. Forjado em 16 anos na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Naquele ambiente, aprendeu a regra de ouro da política paroquial: nunca brigue quando puder negociar. Flávio transitou por todos os campos ideológicos, conversou diplomaticamente com adversários, fechou acordos. É descrito por colegas como alguém com quem "é muito difícil brigar".
No podcast Inteligência Ltda., o senador fez o que sabe fazer. Falou em "sobrevivência do país", chamou para si a missão de "tirar o pai da situação", gravitou em torno do tema central da sua campanha ("eu não sou Lula") e tentou aparar qualquer aresta que pudesse afastar o eleitor de centro-direita.
Flávio está visivelmente empolgado com a ideia de vencer em 2026.
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Eduardo Bolsonaro, enquanto isso, atacou Nikolas Ferreira, o deputado bolsonarista mais popular do país, por motivos, no mínimo, fúteis.
Flávio é, por natureza e por cálculo, um político do consenso. Busca o maior denominador comum, amplia a base, costura alianças. Diante dos atritos públicos na direita, adota postura conciliadora: classifica os ataques do irmão a aliados como atitude que "não é inteligente" e pede que a vaidade seja deixada de lado em nome de um projeto maior.
Eduardo é o oposto exato. Encarna o radicalismo excludente e joga um jogo próprio. Exige lealdade absoluta e inegociável. Pune publicamente quem, em sua visão, não demonstra obediência suficiente. Aplica teste de pureza ideológica contra a própria base. Sem genuflexão, não há conversa.
O projeto de Eduardo é Eduardo.
Sua carreira foi moldada pela "guerra cultural" e pelo extremismo ideológico. Ameaçou fechar o STF com "um cabo e um soldado". Sugeriu a volta do AI-5, usando camisa com o rosto do torturador Brilhante Ustra. Articulou nos Estados Unidos sanções contra o próprio país.
Esse radicalismo obviamente prejudica a imagem de moderação que Flávio tenta construir perante o centrão e um eleitorado mais amplo. Mas esse pode ser exatamente o ponto.
Na estrutura de sucessão do bolsonarismo, Jair Bolsonaro tende a aplicar a regra da primogenitura. Flávio está na frente da fila. Se vencer em 2026, consolida-se como líder da direita brasileira e reduz Eduardo ao papel permanente do irmão-problema, como Andrew para o rei Charles 3º.
Para Eduardo, uma vitória de Flávio não traz vantagem pessoal. Traz ostracismo e isolamento.
Desde 2019, quando articulou para ser o embaixador brasileiro nos EUA, Eduardo deixou claro que seu projeto não é ser uma sombra do irmão no Planalto. Ele nunca escondeu seu projeto presidencial.
Segundo matéria da Folha de agosto do ano passado, seus sistemáticos ataques a Tarcísio de Freitas já faziam parte do projeto presidencial para 2022, antes de o pai escolher o mais filho velho para a disputa. Em setembro, o jornal disse que, para Eduardo, a reeleição de Lula seria "um mal necessário".
Uma derrota de Flávio atende perfeitamente às ambições do ex-deputado.
Tira o primogênito da linha sucessória. Adia a definição de quem fica com o espólio de Jair Bolsonaro. Abre espaço para que Eduardo, ainda relativamente jovem, se apresente em 2030 como o verdadeiro herdeiro do movimento após um quarto mandato de Lula.
O ataque a Nikolas Ferreira só faz sentido dentro dessa lógica.
Nikolas é uma potência digital quase sem concorrentes. Recebeu 1,5 milhão de votos em Minas Gerais, estado central na política brasileira, a maior votação de um deputado federal no país em 2022. É o concorrente direto de Eduardo pelo que chamo de neopentecostalismo bolsonarista.
Nascido em maio de 1996, Nikolas tem hoje 29 anos. Não terá a idade mínima exigida pela Constituição (35 anos) para disputar a Presidência em 2030. Eduardo sabe que seu principal rival estará ainda fora do tabuleiro presidencial na próxima rodada. Sua janela de oportunidade para cortar o fruto da árvore antes que amadureça é agora.
Se o objetivo fosse eleger Flávio, atacar um cabo eleitoral dessa magnitude seria suicídio eleitoral, uma estupidez. Mas o objetivo do zero três é mesmo eleger Flávio?
Flávio sabe disso, ou pelo menos intui. Para o primogênito, Eduardo estaria "ansioso". Teria "contas bloqueadas". Viveria um exílio penoso, "se virando com amigos" e com "algum dinheirinho que conseguiu guardar". Ainda diz que "conversa até mais com Eduardo do que com Carlos".
A frase posiciona o senador como mediador da família, o mais ponderado e sábio, o líder que controla o mais volátil da família.
A pergunta que define 2026 não é se Flávio conseguirá vencer Lula. É se consegue derrotar Eduardo primeiro.
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