A incoerência da FIFA, perigos do Mundial e o ‘Portugal das Lajes’
Roberto Martínez deu a conhecer a convocatória para os jogos particulares de preparação frente ao México e Estados Unidos, dois dos países organizadores do Mundial de 2026 (o outro é o Canadá), jogos estes a realizar, o primeiro já amanhã, no Estádio Azteca, na Cidade do México, onde se vai disputar a partida inaugural do certame patrocinado pela FIFA de Gianni Infantino, e três dias depois, a 31, em Atlanta, uma das 16 cidades anfitriãs do Mundial, ao nível das mais relevantes do certame.
Neste passo, e quando a Liga portuguesa entra em pausa, quero deixar bem clara a opinião segundo a qual estes jogos particulares de preparação com o México e os Estados Unidos, países anfitriões do Mundial-2026, envolvem algum risco escusado, porque Portugal — embora teoricamente protegido pelo escudo norte-americano — está cada vez mais exposto por força do efeito da utilização da Base das Lajes para os abastecimentos necessários no sentido deste contexto de Guerra.
O Campeonato do Mundo propriamente dito jogar-se-á entre 11 de Junho a 19 de Julho (o mais longo de sempre, 39 dias, com 48 seleções) e as equipas participantes devem chegar 7 a 10 dias antes do encontro inaugural.
Tudo seria encarado com alguma naturalidade se este Mundial não estivesse a ser preparado no meio de um conflito militar sério entre os Estados Unidos e Israel contra o Irão (e vice-versa) com consequências e ameaças significativas em diversos países do Médio Oriente, nomeadamente num conflito regional alargado que já envolveu países como o Líbano, Síria, Iraque, Iémen, Bahrain, para além do Irão e Israel, naturalmente.
O Irão tem uma posição clara sobre a participação no Mundial — após algumas posições iniciais de recusa, hoje está mais próximo da versão de que não é a sua participação que está em causa no campeonato do Mundo, mas sim jogar em território norte-americano.
A FIFA não tem, à data, uma posição definida, mas sabe que alterar calendários e jogos datados em sorteio para as cidades de Los Angeles e Seattle representa uma cedência perante o Irão e sabe-se que isso poderia ser um ponto de eventual conflito entre Donald Trump e Gianni Infantino que, até à data, tem sido de uma proximidade total.
Não escapa a ninguém que a diplomacia geo-futebolística de Infantino, obviamente com conotações políticas, tem sido muito activa e especial com países como os Estados Unidos e Arábia Saudita e não foi por acaso que Infantino e Cristiano Ronaldo estiveram presentes no jantar realizado há 4 meses na Casa Branca que reuniu a elite norte-americana junto da dinâmica que visava aproximar o Presidente dos Estados Unidos do príncipe herdeiro do reino saudita, Mohammed bin Salman.
Objectivo: uma clara aliança política, económica e mediática, com ganhos e vantagens a distribuir por muita gente (quando a pobreza pode atingir metade da população da Terra).
Estamos a 75 dias do arranque do Mundial e, salvo melhor opinião, há várias questões no ar, perante avanços e recuos dos Estados Unidos perante o Irão, que se qualificou desportivamente para o certame:
1) No contexto actual deve haver Mundial (devido à questão das ameaças e da segurança) global dos participantes?
2) Presença do Irão (mesmo que não seja nos EUA, mas no México ou Canadá) não será forte motivo suficiente para colocar em causa a segurança do certame, dos participantes e dos adeptos nos Estádios?
3) Perante um Mundial que se disputa maioritariamente nos Estados Unidos (75% dos jogos) e num contexto em que Donald Trump está a criar um quadro de relações geo-políticas com diferentes consequências no globo terráqueo, até que ponto, entre aliados e não aliados, a FIFA vai garantir uma competição “limpa”, neste contexto?
É bom não perder de vista que a FIFA e a UEFA, em 2022 — completaram-se recentemente 4 anos — decidiram suspender todas as seleções e clubes russos, no contexto da invasão da Rússia à Ucrânia.
A FIFA usou como justificação da sua decisão a necessidade de garantir “segurança e integridade das competições”, na sequência da pressão internacional e de várias Federações recusarem-se a jogar com a Rússia, que ficou excluída de jogar o playoff de acesso ao Mundial de 2022, cuja fase final se realizou no Qatar.
Gianni Infantino (2016-2026, com mais um ano de mandato por cumprir) estava em pleno segundo mandato como presidente da FIFA quando juntamente com a UEFA decidiram suspender a Rússia de todas as competições, mas quatro anos antes, contraditoriamente, a FIFA , com o mesmo presidente, deu luz verde à Rússia para organizar o Mundial 2018 em território russo e Putin já havia dado ordens para anexar a Crimeia.
Há, como se vê, muito pouca coerência nestes casos.
A FIFA proclama, implicitamente, “neutralidade política” nos seus estatutos, mas tem actuado mais por pressão e, neste caso do Mundial de 2026, não há que ignorar o peso dos Estados Unidos do ponto de vista político, económico e mediático.
E Infantino sabe disso e soube posicionar-se, recentemente, entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita e, portanto, há muita política associada ao futebol à escala global, ao contrário do que a própria FIFA proclama.
Regressando às 3 questões que colocava mais acima neste artigo: o Mundial-2026 está debaixo de um contexto muito específico e potencialmente perigoso mas o facto de estarem em causa qualquer coisa como 14 a 23 mil milhões de euros, no caso da suspensão da prova sobretudo por questões de segurança, também não ajuda à afirmação da… neutralidade.
E quem tiraria os Estados Unidos de uma competição como esta, com o risco de Donald Trump — passe a ironia, ou talvez não — ir buscar Gianni Infantino aos seus aposentos?
Neutralidade? Não nos façam rir.
Não está em causa a condenação de regimes totalitários, anti-democráticos, que colocam em causa direitos humanos essenciais, plasmada na sua Declaração Universal e adoptada pela ONU.
Porque, se estivesse, a FIFA não poderia deixar competir, por exemplo, a Coreia do Norte, nomeadamente em 2010, na África do Sul, quando jogou com Portugal (já o havia feito no Mundial de 1966, naquele mítico jogo que colocou Eusébio na galeria dos deuses).
Quando a FIFA suspendeu a Rússia, e embora a comunidade internacional reconheça a violação dos direitos da Ucrânia, abriu um precedente — e não há nenhuma letra formal sobre casos de invasões ilegítimas de países sobre países, como também foi o caso específico da captura, por via militar e política, na Venezuela, de Nicolás Maduro pelas forças especiais dos Estados Unidos.
Embora estejamos sempre ao lado da democracia e contra regimes totalitários, a FIFA não é um tribunal. E se, por excesso de poder, se quer transformar num tribunal então tem de ser coerente. E Infantino não foi coerente.
Permitiu a realização do Mundial de 2018 na Rússia, suspendeu o futebol russo após a invasão da Ucrânia e agora tenta assumir uma espécie de “neutralidade — como direi? — conveniente”, quando está em causa o não comprometimento do Mundial nos Estados Unidos, juntamente com o México e Canadá.
Gianni Infantino, segundo os relatórios da FIFA, tem um salário base anual de cerca de 3M€/ano, ao qual se junta um bónus anual de cerca de 2,4M€ e em anos de Mundial há ainda um bónus de ciclo que pode atingir mais alguns milhões de euros. A FIFA ainda cobre habitação oficial, viaturas, despesas e viagens, custos pessoais relacionados com família (educação, por exemplo).
Só a título de comparação o presidente da UEFA ganha cerca de 3M€/ano.
Um escândalo que ninguém contesta e muitos ambicionam. Talvez isso justifique tantos silêncios sobre questões fracturantes que atingem o futebol.
Ainda acham que os dirigentes máximos do futebol não protegem os poderes e, sobretudo, os poderes maiores? E porque será que reformas importantes são tão difíceis de concretizar?
Uma coisa é certa, a finalizar: vão ter de ser requisitados e operacionalizados todos os meios de segurança possíveis para que este Mundial não seja uma “bomba” pronta a explodir. Esperemos que Trump e Infantino tenham essa consciência. E, já agora, que Portugal também.
Voltaremos ao assunto, com outras “nuances”.
