A todo o gás (natural)
Não parece, mas só passaram 21 dias desde os primeiros bombardeamentos sobre o Irão. Nestes 21 dias, o petróleo subiu quase 50% – e o preço final do gasóleo cerca de 25%, se contarmos com o aumento que se prevê para a próxima segunda-feira: o gasóleo simples vai topar os dois euros por litro, mais 40 cêntimos do que a 28 de fevereiro. Se o governo não tivesse prescindido do correspondente encaixe adicional de IVA, seriam mais 50 cêntimos por litro. Não há como fugir: os preços já estão a subir e o poder de compra a descer.
Esta constatação ofusca outra, tão ou mais preocupante mesmo se menos visível: o impacto que o aumento do gás natural tem sobretudo nas empresas industriais em Portugal. Somos um país de serviços, com o turismo à cabeça, e ignoramos muitas vezes os desafios enormes que as empresas industriais (e agroindustriais) enfrentam. Muitas não têm nada de sedutor, não são ideias espampanantes nem espaventosas, são a economia real, chão de fábrica sujo, índices de produtividade muito apertados, concorrência internacional ferocíssima. Essas indústrias enfrentam várias dificuldades muito específicas em Portugal: a distância face aos clientes internacionais, a escassez de mão de obra – e a dependência dos custos energéticos, que não controlam. Incluindo do gás natural.
A pressão sobre a indústria portuguesa é neste momento enorme, mas sobre isso não se ouvem grandes preocupações públicas nem pequenas medidas governamentais. A equipa de Luís Montenegro, que foi lesta a anunciar congelamentos de impostos nos combustíveis (para todos), descontos adicionais para o gasóleo profissional (para as empresas de transportes) e descidas no gás de bilha (num período de primavera, em que apesar de tudo há menos consumo das famílias), não ligou pevide às empresas industriais. A própria CIP, estranhamente, não coloca o assunto na agenda.
Sucede que a guerra que aparentemente Israel preparou vagarosamente e a que os Estados Unidos se juntaram depressa (e provavelmente à pressa) parece estar longe de acabar. Donald Trump parece cheio de vontade de anunciar o fim do conflito, preparando uma narrativa vitoriosa e uma mudança de assunto mediático-político, talvez para Cuba, cujo regime apodrece e o povo empobrece, o que se intensifica agora pelo cerco energético, por escassez, lá está, de petróleo: arma económica no Médio Oriente, na América Latina, na Rússia.
É surpreendente confirmar como o excesso de confiança de Donald Trump parece ter feito iniciar uma guerra que ele próprio não sabe acabar. Enquanto isso, o petróleo sobe, sob muito e sobe depressa. E todas as medidas que a Europa tomou para reduzir as suas dependências continuam a ser insuficientes. Este é um tema geopolítico, mas é também um assunto de competitividade. Incluindo daqueles para quem, afinal, poucos olham. Incluindo as indústrias. Incluindo as nossas indústrias. A fatura sobe primeiro para elas. Depois sobe para todos.
