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Consumir, Consumir, Consumir.

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22.07.2026

Temos cá em casa, estacionadas lado a lado, duas medidas do tempo. De um lado, uma BMW E34 de 1992, uma carrinha alemã de proporções sóbrias e alma inflexível, desenhada numa época em que os engenheiros ainda tinham mais poder de decisão do que os departamentos financeiros. Fecho a porta e ouço um estalido seco, pesado, quase solene. Do outro lado, um citadino francês com os seus treze anos, prático, económico, cumpridor de todas as normas europeias de emissões e segurança que a sua antecessora nem sonhava, mas oco por dentro, plástico até ao osso e a começar a denunciar-se em pequenas avarias que, sozinhas, não significam nada, mas que, em conjunto, contam uma história muito clara.

Não é um golpe de sorte nem um acidente de fabrico. É o retrato, em exemplo automóvel, de algo bem mais vasto: a decadência deliberada, a obsolescência programada, sistemática e lucrativa daquilo que compramos, vivemos, usamos e, cada vez mais depressa, deitamos fora.

Também não é nostalgia, ou pelo menos, não é só isso, esse vício fácil de confundir saudade da juventude com o declínio real do mundo. O “no meu tempo é que era bom” é hoje um facto observável, replicável e mensurável em quase tudo o que nos rodeia. A qualidade e a longevidade deixaram de ser objetivos de engenharia para se tornarem variáveis de negócio, ajustáveis consoante convém ao trimestre fiscal seguinte. Os engenheiros (antiga aristocracia do saber fazer) já não são os protagonistas da criação de um produto. São, quando muito, consultados depois de o departamento financeiro ter decidido quanto tempo esse produto tem autorização para durar.

Se procurarmos a origem desta lógica, encontramos um exemplo preciso e um conluio real, embora pareça teoria da conspiração tirada de um Reddit obscuro. Em dezembro de 1924, em Genebra, reuniram-se os maiores fabricantes de lâmpadas do mundo e fundaram uma sociedade a que chamaram Phoebus, em homenagem a Apolo, o deus grego da luz. O objetivo era simples, cínico e nada divino: as lâmpadas incandescentes da altura duravam, em média, 2500 horas, o que era péssimo para o negócio. Decidiram, em conjunto, baixar essa duração para exatamente 1000 horas, criando um sistema de multas para qualquer fabricante cujas lâmpadas insistissem em durar mais do que o combinado. Ou seja: não faltava engenho para fazer melhor; sobrava a determinação de fazer pior, e de o fazer com precisão milimétrica.

A obsolescência programada não nasce da incompetência técnica; nasce da competência técnica e tecnológica colocada ao serviço de um objetivo espúrio.

Pergunto ao caro leitor: gosta de ficção científica do passado? Prometeram-nos, ao longo do século que passou, que por esta altura andaríamos de carros voadores. Prometeram-nos o fim do trabalho penoso, o lazer generalizado, uma abundância partilhada por todos graças ao progresso tecnológico. Chegámos a meio da década de vinte e, em troca dessa quimera, temos........

© SOL