Grandes Mulheres
É bom recordar histórias verdadeiras de mulheres que nunca desistiram de realizar os seus sonhos, mesmo quando tudo estava contra elas.
Se há coisa que nunca faltou neste mundo, foi Grandes Mulheres.
A Maria da Fonte não gostou de umas leis lá do seu tempo e liderou uma revolta. Eu, quando não gosto das leis modernas, mudo de canal. Ela mudou o país.
A Padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, para os amigos, meteu oito castelhanos no forno. Oito! Recentemente fiquei horas a olhar para o forno, sem saber como o ligar. Imagino-a a olhar para mim e a pensar: «Cinco décadas de vida e ainda não sabes regular a temperatura do forno?»
Lembro-me de ser novo e ver na televisão a maravilhosa Natália Correia - poetisa, deputada, furacão em forma humana. Tinha respostas mais afiadas do que as facas da minha cozinha.
Mais tarde a Odete Santos, que tinha uma gargalhada capaz de abalar tetos e adversários políticos. Não precisava sequer de microfone, só de convicção.
E já que falamos de mulheres que fazem pontes, não esqueçamos a extraordinária Emily Warren Roebling. O ano passado estive em NY e recordei a sua história. O marido adoeceu durante a construção da Brooklyn Bridge e ela basicamente pegou no projeto e coordenou engenheiros, lidou com políticos e cálculos estruturais - tudo numa época em que as mulheres mal podiam votar.
Eu, para montar uma estante do IKEA, preciso de três vídeos no YouTube e de um intervalo para respirar fundo.
Em contagem decrescente para a tomada de posso do novo Presidente da República, recordo Maria de Lourdes Pintasilgo, única mulher primeira-ministra de Portugal, até hoje. Eu mal governo o comando da televisão, ela governou o país num tempo em que não era suposto governar
Se o mundo é uma obra em construção, há muito tempo que as mulheres são as engenheiras-chefe. Nós somos, vá… os ajudantes que seguram a escada. Quando a seguram bem.
Jeanne Baret nasceu na aldeia de La Commelle, no centro de França, no dia 27 de julho de 1740. Sempre acompanhou os pais a cuidar da terra e foram eles que a iniciaram no conhecimento das plantas e nas suas propriedades curativas.
Ficou órfã muito cedo e teve de procurar um meio de subsistência. Quis o destino que fosse contratada como precetora de um menino que tinha ficado sem mãe. O pai chamava-se Commerson e era um famoso naturalista e botânico, que se apaixonou e casou com ela.
O rei Luís XVI nomeou Commerson seu botânico e, em 1766, patrocinou-lhe uma volta ao mundo para trazer novas plantas de territórios desconhecidos. Jeanne tinha então 26 anos, e o marido quis levá-la com ele, até porque sabia das suas qualidades de investigação.
Mas aí levantou-se um pequeno problema: a Marinha francesa não permitia mulheres a bordo, imagina. Nem isso impediu Jeanne de ir para a frente com o seu sonho: combinada com o marido, fez-se passar por homem. Amarrou o peito, usou roupas largas, enfiou o cabelo num barrete, e só respondia por Jean. E assim se fez ao mar.
Andaram por estranhos países: Terra do Fogo, Taiti, Ilhas Maurícias. Commerson começou a sentir-se mal e acabaria por morrer. Foi Jeanne que andou a recolher plantas desconhecidas.
Quando voltou a França trazia com ela mais de seis mil espécies botânicas desconhecidas. Porém, todos os créditos foram para Commerson. Todas as espécies botânicas novas, fruto de tantos anos do seu trabalho, foram registadas em nome do marido. O rei Luís XVI deu-lhe uma pensão vitalícia, que lhe permitiu sobreviver e a partir dai nunca mais se ouviu falar dela. Um esquecimento absoluto rodeou-a, porque era mulher num mundo de homens.
Recentemente, uma biografia escrita por Glynis Ridley veio lembrar as pessoas da existência de uma grande mulher que, por ser mulher, foi remetida ao silêncio e ao esquecimento.
Não se esqueçam disto.
