“Eu tomo banho, uso perfume caro, e também venho para aqui”
Domingo, 18 de outubro
«Os manifestantes vão permanecer aqui na Praça D. João I e não fazem intenções de desmontar as tendas», avisa a repórter da SIC Notícias, Márcia Torres, na manhã do primeiro domingo de manifestações públicas pela habitação no Porto, enquanto lá atrás se vê os miúdos ordeiros a apanhar o lixo e a limpar a praça que ocuparam durante a noite, ou seja, demonstraram uma disciplina e higiene mais rigorosa que muitos dos cidadãos de geração acima deles que estão sentadinhos no sofá a exigir ordem e bom comportamento aos insurrectos, até porque o país está cinco estrelas, a crise da habitação não é real, e o Governo já demonstrou ter unhas para tocar este faduncho. Aguardamos portanto o momento em que os reacionários lá de casa percebam que, depois do debate público sobre a habitação, haverá um debate público ainda mais abrangente, desta vez sobre o emprego e o trabalho, não sei se restarão baldes, esfregonas e wc pato suficiente para a quantidade de pessoas vítimas da limpeza laboral que aí vem.
Domingo, 18 de outubro
Casados à Primeira Vista aos domingos na SIC não é apenas um reality show em que românticos desesperados decidem casar-se com a primeira pessoa que se lhes aparece à frente, para depois perceberem que deram um valente tiro no pé e agora não há ponto de retorno, é também um excelente catálogo de patologias e relações tóxicas que reflete uma sociedade obcecada com a vaidade e o sucesso individual, em detrimento da construção sentimental e social coletiva.
Na edição que agora a SIC exibe, dois casais agonizam há semanas, em busca de uma resolução miraculosa que caia do céu, ou que se apresente como panaceia criada pela produção e respetivos especialistas: o casal Bruna e Micael vive uma relação sofrível, iniciada pelas birras e o orgulho misógino por parte do noivo desde a lua de mel. A mitomania centrípeta de Micael é tão intensa que o espectador até se esquece de que há ali um outro ser humano, a sua noiva, cuja personalidade desconhecemos em absoluto, tal a energia gasta por Bruna em agradar o seu noivo.
O segundo caso clínico do concurso é o de Catarina e João Pedro, ela não gostou do que viu no altar no dia do casamento, e imediatamente queimou as pontes com o seu noivo, num daqueles casos típicos de compromisso comprometido. Pior: Catarina entrou num circuito de manipulação profissional, apresentando-se como vítima de algo que nunca aconteceu, e o ponto alto foi a desistência e saída do reality, num episódio em que a noiva foi incapaz de expressar as suas emoções, alegando que seria incapaz de o fazer na presença do seu noivo, João Pedro.
Como castigo, a produção devia ter separado ambos os casais e enviado os dois manipuladores profissionais, Micael e Catarina, para uma lua de mel em destino incerto com bilhete só de ida.
Segunda-feira, 19 de outubro
A semana começa, os jovens fazem noitadas e acampadas pela crise de habitação, e a comunicação social vê-se entre a espada e a parede, hesitante sobre se deve permanecer fechada nas redações........
