Portugal: A Ambição de Abril por Cumprir
Houve um momento em que Portugal exigiu mais de si – não se conformou com o que era e recusou a ideia de limite, acreditando, sem reservas, que podia ser mais: mais justo, mais desenvolvido, mais equilibrado. A Revolução de Abril não foi apenas um ponto de rutura, mas um exercício exigente de imaginação coletiva sobre o futuro do país e uma afirmação clara de ambição sobre aquilo que poderíamos vir a ser.
Os países, porém, não se definem apenas pelos momentos em que se reinventam, nem pela clareza com que, em determinados momentos, identificam o caminho. Definem-se, sobretudo, pela forma como conseguem sustentar, ao longo do tempo, essa ambição – com consistência, previsibilidade e capacidade de execução.
É precisamente nesse plano que Portugal revela uma dificuldade persistente: não na definição da ambição, mas na sua concretização continuada. Ao longo de décadas, fomos capazes de projetar prioridades, reconhecer bloqueios e enunciar respostas. O que tem falhado não é o diagnóstico, nem sequer a intenção – é a capacidade de transformar essa ambição em prática consistente, acumulativa e duradoura.
Entre aquilo que, em determinados momentos, fomos capazes de imaginar para nós próprios e aquilo que conseguimos efetivamente sustentar, foi-se instalando um desfasamento discreto, mas contínuo, que deixou de ser exceção para passar a padrão – não por ausência de capacidade, mas por uma dificuldade estrutural em transformar intenção em continuidade.
É nesse intervalo que Portugal ainda vive.
Ao longo do tempo, essa distância tornou-se visível em diferentes dimensões da vida coletiva: na dificuldade em transformar direitos formais em experiências consistentes, na persistência de desigualdades entre territórios, na pressão sobre serviços essenciais –........
