Obrigado a governar
Seguro ou Ventura? Freguesia de Lisboa deixou crianças votarem e o resultado foi outro
O Povo é sábio a votar. Não há dúvida. Faz até uma certa espécie como é que, feito o escrutínio e apurados os votos de regiões tão díspares como Algarve e Trás-os-Montes ou Minho e Alentejo, Madeira e Açores e Beiras, tudo somado acaba sempre com um resultado que, nas circunstâncias do momento, atesta que o eleitorado sabe mesmo o que está a fazer quando vai às urnas. E vai às urnas. Mesmo quando no meio de tempestades nunca vistas, vai às urnas. Mesmo que seja para votar em branco, vai às urnas.
Não vale a pena lançar anátemas sobre quem vota neste ou naquele ou dizer que a democracia está em risco quando a maioria vira à esquerda ou à direita – e não, não há só um extremo no espectro político-partidário, nem a esquerda é só esquerda e a direita só extrema-direita. A democracia é o respeito pelo voto do povo e o respeito pela maioria e o respeito pelas minorias. O contrário, sim, é antidemocrático.
Por isso, quem diz que neste último domingo ganhou a democracia não está errado, está só a constatar uma inevitabilidade: ganhava sempre, fosse qual fosse a vontade expressa pelo povo. O resto são lérias de quem não sabe, democraticamente, respeitar o voto de quem pensa diferente.
Se assim não fosse, e vivessemos um risco real para o estado de direito democrático ou para a democracia, então é porque as instituições democráticas e o estado de direito democrático estão mesmo vulneráveis ou a entrar em falência.
Em primeiro lugar e desde logo, porque a esmagadora maioria que veio agora defender a Constituição como razão de escolha do próximo Presidente, na realidade, nem sequer se revê no texto consitucional – da esquerda à direita, não faltam anacronismos e preceitos normativos em que, ora uns por umas razões, ora outros por outras, raros teriam pejo em suprimir, revogar, alterar.
A nossa Constituição, demasiado exaustiva e taxativa, está datada, descontextualizada e desconforme aos novos tempos e desafios.
Se é urgente mudar? Seria bom modernizá-la, adaptá-la às novas realidades, dar-lhe coerência e utilidade.
Se não, vem daí grande mal ao mundo? Trava algumas eventuais e necessárias reformas e, por junto, já só atrapalha.
Em segundo lugar e por fim, o resto é a democracia a funcionar... cá como no resto do mundo. São ciclos.
E estas presidenciais, por cá, marcam o início de um novo ciclo.
Curiosamente, ao fim de 50 anos de democracia, a saída de cena de Marcelo Rebelo de Sousa é a saída do último dos fundadores constituintes da política ativa.
Seguro, como Montenegro, já faz parte da geração seguinte.
Seguro tem um resultado à Soares – bate até o recorde de votos do fundador do PS_e da Democracia – mas é um delfim, sim, de António Guterres.
Soares e Guterres eram como água e azeite – o sótão de Algés que o diga – e veremos de qual dos dois o Presidente Seguro mais se aproximará.
Pela amostra do que foi mudando na campanha presidencial (sobretudo da primeira para a segunda volta), mas também pelo teor do discurso de vitória neste último domingo, se Montenegro bem pode estar à espera de um delfim de Guterres, bem pode começar a preparar-se para alguém mais inspirado no Velho Leão socialista.
Seguro foi claro na mensagem de que o primeiro-ministro vai ter condições de estabilidade para governar. Ou melhor, disse expressamente que não será por ele, PR, que a legislatura não chegará ao fim, mas também disse que o Governo não terá «desculpas» para não fazer o que se comprometeu a fazer.
Uma mensagem que é válida para o PSD,_mas também para o PS_e bem assim para o Chega.
Ou seja, a ser assim, estas eleições, se eram para a escolha do sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em Belém, serviram não apenas para a escolha de um Presidente mas também para a clarificação de que nos próximos três anos, em vez de andarmos entretidos com campanhas eleitorais e eleições umas a seguir às outras, vamos ter um Governo com margem para reformar e implementar as mudanças que se impõem em praticamente todas as áreas e setores.
Portugal tem de sair da cepa torta e começar a recuperar o já demasiado tempo perdido.Se esse foi um sinal do discurso do Presidente, é também a consequência da votação que teve André Ventura nesta segunda volta. Mais 400 mil votos do que na primeira volta, mais 300 mil do que o Chega nas últimas legislativas.
Ficar acima dos 1,7 milhões não terá sido o suficiente para Ventura e suas hostes cantarem vitória, arrefecidos pelo facto de ter ficado aquém dos 2 milhões e, sobretudo, a umas poucas dezenas de milhares da votação de Seguro na 1.ª volta.
Mas se um em cada três votos caiu para o lado de Ventura, não pode dizer-se que o líder do Chega – que bem sabia estar a concorrer contra todos – tenha saído derrotado.
Que o digam Luís Montenegro e o PSD, também por isso mais obrigados a, nos próximos três anos e meio, governarem e bem.
Mais uma vez, se o Povo saiu à rua num dia assim e foi votar é porque sabe muito bem por que o fez.
E, não havendo desculpas, há que seguir em frente. Governe quem tem de governar, a oposição que faça o seu papel e logo se verá o que o povo terá a dizer. Só em 2029? Talvez, mas isso ninguém pode assegurar: nem o primeiro-ministro em exercício, nem o Presidente eleito
