Aplauso à imperfeição
Sempre fui avesso a arautos do politicamente correto. Querer à força que as sociedades sejam absolutamente asséticas ou impor limites ao pensamento e ao direito à opinião é violar a essência da liberdade. Não me imagino a viver num ambiente controlado, ao ponto de a opção pelo cinismo se sobrepor à diversidade e à espontaneidade próprias da natureza humana. Não me aflige a divergência, nem me assustam os consensos. Preocupam-me sim todas as tentativas de normalização de comportamentos, a que vamos, infelizmente, assistindo, como se a pluralidade que dá cor à vida se pudesse simplesmente diluir numa massa informe, sem identidade nem alma.
Nos últimos dias, duas ou três situações me conduziram a esta reflexão.
A nomeação de Luís Neves para ministro da Administração Interna foi uma delas.
A escolha do antigo diretor nacional da Polícia Judiciária para o lugar, se mereceu elogios, também deu origem a comentários fortemente críticos, da parte de alguns setores, sobretudo, à direita. Até aqui nada de mais. O que me incomoda é o clima de suspeição que se instalou em Portugal, em relação a qualquer pessoa que cometa a ousadia de ocupar um cargo de natureza política ou que assuma um lugar na administração pública. Não vejo – sinceramente não vejo – por que razão alguém há de aceitar, nos dias de hoje, dar o seu contributo a um governo ou a uma instituição do Estado. Além da devassa da sua vida e do salário inadequado, torna-se automaticamente um indivíduo suspeito. Luís Neves foi diretor da mais importante entidade de polícia criminal no nosso País e, nessa qualidade, passaram-lhe pelas mãos vários dossiers sensíveis, entre os quais, as investigações de que o primeiro-ministro tem sido alvo. E daí? Ou foi um prémio que Luís Montenegro lhe quis dar em reconhecimento pelos arquivamentos de tais processos ou, então, trata-se de uma manobra do primeiro-ministro para garantir o controlo das polícias. Duas hipóteses, entre outras, que já fui ouvindo. Enfim, saber-se se a competência evidenciada em atividades passadas serve de credencial para uma pasta governamental acaba, para muitos, por contar pouco. Para quem, como eu, entende que a competência – junto com bom senso e vontade de servir e ajudar a melhorar a sociedade – é o principal atributo de um governante, argumentos que vão além disso não me interessam. De direita ou de esquerda, da Maçonaria ou do Opus Dei, empresário ou sindicalista, desde que competência, sensibilidade e espírito de iniciativa convivam, na compreensão do que são as necessidades e aspirações da população, há que fazer a avaliação nos momentos certos, concedendo o beneficio da dúvida. Não consigo ver as coisas de outra forma, cedendo ao discurso do rebanho.
Outro caso que provocou grande celeuma foi o de Prestianni e dos alegados insultos racistas a Vinicius. Histeria cá dentro e lá fora. A ser verdade – se alguém a conseguir apurar – justifica-se punição exemplar. Se não, há que saber interpretar e agir em função do que se descobrir. Enquanto for a palavra de um jogador contra a de outro (aparentemente, com apenas uma testemunha e pertencente à equipa espanhola) manda a prudência que a presunção de inocência exista. Aplicar, antes da sentença, um jogo de suspensão conduz a que se levantem dúvidas sobre o sentido de justiça da UEFA e a sua isenção. Do mesmo modo, surpreende-me o coro de criticas à Direção do Benfica, por ter defendido precisamente o principio da presunção de inocência para Prestianni ate à conclusão do processo e não ter condenado atitudes racistas. Em relação ao último aspeto, não foi o que vi e ouvi. Quanto à ‘defesa’ do jogador: que faz qualquer entidade patronal ou chefe de equipa, em qualquer ramo? Abandona os seus, sem lhes dar oportunidade de defesa? Deixa, pura e simplesmente, cair alguém, perante acusações, até a verdade, ou o que for possível esclarecer sobre ela, surgir à luz do dia? É horrível este hábito de condenar sem ouvir e sem investigar. De um chefe espera-se que proteja aqueles que com ele ou para ele trabalham, que seja confiável e que não abdique de sentido de justiça, exercendo-o com mão pesada ou não, conforme as circunstâncias. É assim que as pessoas – falando de lideres – se tornam respeitadas. Não importa a atividade. Dá trabalho, muito trabalho, mas é o caminho certo para gente de bem, para quem prefere a realidade, imperfeita e com todas as suas contradições a um mundo assético.
