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O lado impuro dos 'objetos mais puros do mundo'

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Pus-me a percorrer A Rota da Porcelana por causa do anterior livro do autor, A Lebre com Olhos de Âmbar, em que ele nos conta como lhe foi parar às mãos uma coleção de 247 netsuke de marfim e de madeira, uma herança familiar que recebeu de um tio-avô que vivia no Japão.

No seu segundo livro, Edmund De Waal entrelaça mais uma vez memórias pessoais com relatos de viagens, história, trechos de documentos, descrições de objetos e pequenas reflexões, o que lhe confere um carácter especial. Mas teria o ‘ouro branco’ - perguntei-me - o mesmo poder de fascínio que os pequenos bonecos japoneses?

A Rota da Porcelana começa, como não podia deixar de ser, na China. Não é verdade que, em inglês, ‘china’ continua a ser outra forma de dizer porcelana? Mais concretamente, em Jingdezhen, onde as belas peças de cerâmica continuam a ser produzidas, mais coisa menos coisa, como há mil anos. «Nesta cidade são feitos os objetos mais puros do mundo. É uma terra de saberes e fazeres, artes e ofícios, de uma sofisticação industrial que ultrapassa largamente tudo o que foi feito ou tentado em qualquer outro lugar».

Ali, numa colina enxameada de oleiros, De Waal apanha um caco do chão e fica abismado com o que vê: «É a base de uma taça de vinho do século XII […]. É incrivelmente fino e, em vez de branco, é de um céladon azul-desbotado, com uma teia de aranha de fissuras castanhas após centenas de anos neste chão», descreve. «É a minha visão do Graal. Pego-lhe com reverência e eles riem-se da minha epifania porque à nossa volta tudo é cacos». Quando algo que merecia estar na vitrina de um museu é atirado com desprezo para o chão, percebemos que estamos realmente noutro mundo...

A imagem do precioso caco do século XII semi-enterrado na lama reveste-se de nuances que merecem um minuto de atenção. Em primeiro lugar, lembra-nos que a porcelana vem da terra - é feita com um tipo de argila especial, o petuntsé. Em segundo lugar, o pedaço da taça partida no chão é quase como um objeto morto, que por isso foi enterrado (como recordou o filósofo Giambattista Vico, a palavra humano vem do latim humando, que significa inumar, que, por sua vez, vem de humus - terra). O paralelismo torna-se mais evidente depois de lermos o que escreveu o padre Xavier d’Entrecolles (1664-1741) numa das suas cartas do Oriente: «Um mercador rico contou-me que há anos que alguns europeus compraram petuntsé que levaram para o seu país para fazer porcelana, mas não tinham caulino e os seus esforços foram baldados. [...] E acrescentava o mercador, a rir: ‘Queriam que o corpo se mantivesse em pé só com carne, sem o apoio dos ossos!’». O caulino (que recebeu o nome do monte Kao-ling, não muito longe de Jingdezhen), está pois para a porcelana como o esqueleto para os humanos.

Mas há ainda outro aspeto decisivo. A base da taça de vinho pode ser, como diz De Waal, um dos «objetos mais puros do mundo». Mas há um lado menos puro, menos inocente, sujo até, em todo este negócio. O autor fala dele mais adiante, quase no final do livro. O ano é 1919, a descrição pertence a um visitante americano: «Toda a cidade era tão completamente infecta como umas piores que eu tinha visto na China; não havia nada a que se pudesse chamar limpo». Duas décadas mais tarde, uma repórter também americana relatava que os aprendizes recebiam um dólar por mês, sendo 20 cêntimos entregues aos mestres; «com os 80 cêntimos restantes o aprendiz teria que prover a todas as suas necessidades». Um regime próximo da escravatura. Por outras palavras,Jingdezhen produzia objetos perfeitos às custas de batalhões de escravos, que eram sacrificados em nome da pureza da porcelana. E eram muitos os que, como a base da taça de vinho do século XII, ficavam pelo caminho.


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