O Matuto e os Sete Sapatos Sujos
O Matuto lembra-se bem daquele dia. O sol ardia como um colete de forças. O lago imenso e belo apareceu à direita por entre as árvores. À esquerda, a cortada para Montargil. A estrada serpenteava até ao topo, onde a vista era de cortar a respiração. A vila, com os seus velhos colados às sombras, ficou para trás. Vale Torrado… Farinha Branca… nomes que ainda hoje sabem a terra e a tempo.
Os avós do Matuto receberam-no com aquele abraço reservado ao neto urbano.
A conversa girava à volta das minudências da vida. Cá fora, o calor era um açoite. Lá dentro, havia frescura e o cheiro do pão com azeitonas, acompanhado de queijo fresco. O avô Filipe, pastor de ovelhas lanudas, ia debitando as “novidades televisivas”. A televisão era uma moda recente por aquelas bandas, logo a seguir à eletricidade — e, por esta ordem. O avô Filipe não era homem de habitar anedotas de alentejanos.
— Aparecem na televisão “igrejas” de árabes — disse ele, com o sobrolho franzido. — Lá, eles tiram os sapatos antes de entrar. Coisa estranha… por que fazem aquilo?
O Matuto, com o estatuto de neto estudado, tentou alinhavar explicações: que era tradição, respeito, humildade; que se tratava de deixar as impurezas à porta de um lugar sagrado.
O avô ouviu em silêncio, como quem mastiga a ideia devagar.
E foi ali, entre o pão com azeitonas e a estranheza dos sapatos deixados à porta das mesquitas, que o Matuto percebeu que talvez também nós devêssemos aprender a andar pela vida mais descalços. Há sapatos sujos que se colam aos pés sem darmos por isso. E talvez fosse de bom tom deixá-los à soleira da porta. Sentir o chão.
O Matuto, inspirado por Mia Couto num artigo do Courrier Internacional, e por uma certa teimosia em pôr ordem na alma, começou a costurar alguns desses sapatos sujos que valeria a pena descartar. São sete, porque, tal como Mia Couto, o Matuto acha o sete um número “mágico”.
O primeiro é o sapato sujo que nos ensina a arte de sacudir a água do capote. Nele, a culpa é sempre dos outros: da história, do clima, do azar ou da má vontade alheia. Um sapato cómodo que nos leva à irresponsabilidade bacoca — sugere o Matuto. É o pessimismo português, a escravatura africana, o “ouro roubado” no Brasil… Um sapato que dá jeito — mas sujíssimo.
O segundo é o sapato sujo do desenrasca. Mia Couto escreve: “A palavra ‘boa sorte’ quer dizer duas coisas: a protecção dos antepassados mortos e a protecção dos padrinhos vivos”. É um sapato que acredita mais no empurrão do padrinho do que na força do braço. Anda depressa, é certo — mas raramente chega longe com dignidade — conclui o Matuto.
O terceiro é o sapato sujo que se ofende com a verdade. Prefere o falatório de salão de cabeleireiro à palavra dita de frente. É sensível, melindroso, e mede a viabilidade do diálogo pela própria sensibilidade: “fiquei chocado!”. Aqui o Matuto é lapidar.
O quarto é o sapato sujo das palavras mutantes. Temos ido a reboque de preocupações de ordem cosmética — considera o Matuto. Privilegiamos o discurso que roça o superficial sem tocar no fundo das coisas. Falamos em “narrativas”, em “politicamente correcto”, em “inclusão”. Discursos bem penteados. Expressões que viram baba. Atafulhamos o dia a dia com resoluções e nunca chegamos às acções. Pensamos que, mudando a cobertura, o bolo fica mais comestível. O Matuto gostou desta metáfora.
O quinto é o sapato sujo das aparências. Brilha muito, fotografa melhor ainda, e transforma a vida num desfile. Carros, casas, celulares exibidos como prova de uma existência espampanante. Dentes branqueados, silicones, corpos ozempicados… Um sapato que confunde embalagem com substância.
O sexto é o sapato sujo da indiferença bem-educada. Passa ao lado da injustiça com um silêncio cobarde. Fecha os olhos à perseguição dos Cristãos no mundo. Encolhe os ombros ao tráfico de mulheres e crianças. Tolera, com um suspiro resignado, o regabofe dos políticos. E já se habituou a chamar “libertador” ao terrorismo de esquerda. Um sapato silencioso — e, por isso mesmo, perigoso.
O sétimo é o sapato sujo da imitação. Vive colado ao ecrã, aprende gestos emprestados e sonha vidas alheias. Vai apagando, devagarinho, a voz própria. Deixámos visitas estranhas invadirem a vida dos nossos jovens — denuncia o Matuto. A vida obscena dos ídolos modernos é um trampolim para vestirmos máscaras. Fala-se muito da erosão das florestas e dos apocalipses do clima, mas pouco da erosão da identidade portuguesa e dos pequenos desastres diários infligidos à língua de Camões. Parece que ser moderno é ser folclórico e pífio. É urgente — defende o Matuto — criar um mapa luso onde se assinale a localização dos Adamastores caseiros.
O Matuto ficou a olhar para os próprios pés, suspeitando daquilo que traz calçado. Talvez o avô Filipe tivesse feito uma das perguntas mais sérias da sua vida. Afinal, a verdade é esta: é melhor andar descalço, leve, do que aos tropeções com sapatos sujos.
No muro da Casa das Pontes, o Óscar, a lagartixa residente, com a serenidade dos bichos que não complicam, sentenciou:
— Olha que há muita gente bem calçada… e mal encaminhada.
