O Matuto e o Lobo Antunes
O Matuto descobriu isso numa manhã silenciosa na Casa das Pontes, quando abriu um livro de crónicas do ‘doutor’. Não era exactamente leitura. Era uma espécie de travessia. As frases avançavam como rios largos, cheios de memórias, vozes antigas, sombras de infância e ruídos de guerra.
Porque uma coisa é certa: naquele homem havia uma espécie de sinceridade feroz. Os livros dele não nasceram para agradar. Não pedem licença ao leitor. Pelo contrário: sentam-no numa cadeira e obrigam-no a ouvir histórias de gente cansada da vida.
E isso, o Matuto reconhece, tem dignidade.
Há escritores que escrevem para entreter o mundo. Outros escrevem para explicar o mundo. Lobo Antunes escrevia para se livrar dele. Cada romance era uma limpeza de consciência feita a golpes de machado.
Talvez por isso tenha dito um dia, com a franqueza habitual: “Escrever é uma forma de solidão.”
Há páginas, nos livros de ALA que não obedecem ao calendário. Uma cozinha pode conter quarenta anos. Um gesto banal — alguém a fechar uma janela, alguém a esperar numa sala, alguém sentado num café de bairro — abre subitamente a porta para uma vida inteira. E, aí o Matuto cita de cor: “A memória é uma mentira multiforme. Daí que um bom escritor seja aquele que arruma o delírio”.
Talvez venha daí a estranheza que os seus livros provocam. Não seguem o caminho direito das histórias bem comportadas. Avançam como a memória avança: aos saltos, em círculos, regressando sempre às mesmas dores.
O Matuto suspeita que Lobo Antunes não escrevia romances no sentido habitual. Escrevia auscultações. Como médico que foi, continuou a ouvir o coração humano — apenas mudou o instrumento: Onde antes havia estetoscópio – sangue - passou a haver caneta - tinta.
Na varanda da Casa das Pontes, o Matuto fecha o livro e fica quieto. O Óscar, a lagartixa residente das Pontes arrebita a cabecita melancólica. O chá arrefeceu. O mundo continua no seu lero-lero habitual, mas algo mudou ligeiramente na forma como o silêncio se espraia.
Porque ler António Lobo Antunes tem um efeito curioso: o mundo continua exactamente igual — mas o leitor fica com a estranha impressão de que alguém lhe desnudou a alma – assim, a céu aberto.
