O Matuto e o Ginásio (Academia no Brasil)
O Matuto chega a casa estafado. A deitar os bofes! Depois de ter sofrido os castigos e as irrisões do universo, as insolências do chefe, a grosseria dos burros bípedes, a cretinice da burocracia; depois de ter sido preterido a favor de pessoas sem mérito, o Matuto chega em casa gemendo e suando, vítima de afrontas que nem Shakespeare ousou colocar em cena, tais como o azucrinar do trânsito, o barulho constante, a roubalheira dos preços, a corrupção generalizada (isto é o Brasil, meu chapa!), a demagogia estupidificante, todos os elementos que fazem o Matuto, bom chefe de família, arrancar a roupa, como quem se liberta de grilhões de escravo, desabar no sofá, e suspirar para que todos o ouçam na ‘Casa das Pontes’:
— Mas que m..... de dia! Puxa vida! É de encher a paciência dum santo!
E, assim, este amanuense, um vosso criado, deixa ali estirado no sofá o Matuto, esse guerreiro pós-moderno, resfolegando de indignação, gemendo e suando. E, perguntemos: o que poderá seduzir o Matuto? Talvez um sereno whiskey? Porventura uma leitura inspirativa? Um jazz... Diana Krall? Chet Baker? Paul Desmond? Sem dúvida! Todavia, este amanuense acredita que o Matuto não é como os demais mortais. Estes ficam atarefados com séries de televisão, outros refazem o equilíbrio interior jogando cartas, outros fazem contas ao futuro, outros vão para a taberna (boteco, no Brasil, por favor) encharcar-se em sonhos etílicos, outros, redundantes, tiram uma soneca antes de dormir.
Seja como for, chega um homem a casa, seja o Matuto ou um ser menos elegante, e depara-se com um dilema: a esposa. Sim, a esposa que está pronta para ir ao ginásio (ACADEMIA, no Brasil, por favor). O mundo é fascinante e estranho, mas uma coisa é invariável: todas querem ir ao ginásio depois do jantar. Independentemente da personalidade do marido, da sua filosofia de vida, das suas responsabilidades e do seu cansaço, a esposa do homem só deseja uma coisa: ir ao ginásio.
Mulher de tenente das forças armadas, de polícia, de bombeiro, de ministro, de vereador, de funcionário público, de maquinista da CARRIS, de provedor da Santa Casa, de poeta, de actor, de médico (especialmente esta!), de pedreiro ou carpinteiro; a que vai ao terapeuta, a que frequenta psicanalista, a de carácter ou sem moral mesmo, a alegre ou depressiva, a que tem pedra no rim, refluxo de estômago ou faz botox — todas confirmam esta regra universal, esta obsessão caudalosa: querem ir ao ginásio.
Mas avancemos que se faz tarde! Deixámos o Matuto ali refastelado no sofá da sala. Sejamos francos. Há homens honrados que gostam de ir de vez em quando ao ginásio. E o Matuto é homem honrado. Ora lá se é! Afinal talvez ir ao ginásio seja semelhante a gostar de literatura, de filmes, de um bom vinho ou de ouvir uma sonata de Chopin. Não viria daí mal ao mundo.
O Matuto sabe que o seu abdómen não é exactamente património mundial…
O dilema está no facto das esposas sacerdotisas do ginásio sentirem-se traídas e humilhadas caso o esposo não queira ir ao bendito ginásio (ou não queira nem a milagrosa dieta, nem cortar nos whiskeys nocturnos). E aí juntam-se num amuo amargo de virgens ofendidas, suspiram desalmadamente, sentem-se ultrajadas, desamadas, enganadas do seu enaltecido ideal.
O Matuto já viu esposas aguentarem indignidades imensas. Viverem em relativa paz com canalhas monstruosos, bêbados repelentes, vagabundos irredutíveis, neuróticos consumados e até mulherengos banais. Mas nunca viu um lar onde o marido tenha tido o topete de se rebelar contra esta sanha moderna de ir ao ginásio. O marido pode chegar a casa de madrugada a cheirar a Chanel 5, pode não avisar duma reunião tardia, pode ter o telemóvel (celular, no Brasil, por favor) desligado a horas suspeitas — tudo se acomoda.
No entanto, se o homem ousa cogitar não ir ao ginásio, suscita na sua cara metade um ressentimento incurável.
Vivemos tempos de loucura conjugal — pondera o Matuto. Desvarios sociais jamais experimentados. Este frenesim do corpo perfeito, de estar em forma, de fazer dietas, é um capricho bizarro. Uma extravagância!
E assim, na ‘Casa das Pontes’, enquanto a cidade inteira ergue halteres como quem sustenta os pilares da civilização, o Matuto permanece no sofá — gemendo e suando. Já viu casamentos resistirem a falências, traições, eleições, e sogras militantes; mas suspeita que poucos sobreviveriam à ousadia de um marido que falte ao ginásio numa terça-feira.
E, no entanto, enquanto resmunga contra esta cruzada fitness, o Matuto sabe — com a lucidez cruel dos espelhos da casa de banho — que o seu heroísmo termina invariavelmente diante de um abdómen que não ameaça candidatura a monumento nacional.
