Porque é que o tempo parece escapar?
Já é outra vez sexta-feira?’, ‘Como é que já estamos outra vez no Natal?’. Com o passar dos anos, o tempo parece acelerar. E, apesar do espanto – quase indignação – com a forma como o sentimos escapar entre os dedos, há algo em nós que continua a estranhar este novo ritmo. Como se recusasse aceitar a mudança.
O sentimento é quase universal: o tempo passa demasiado depressa. Muito mais depressa do que desejaríamos.
Todos nos lembramos da voz da experiência a alertar: ‘Aproveita bem a juventude, porque depois passa tudo a correr!’. Nessa altura, quando a vida ainda fluía lentamente sob o manto intocável da juventude, essa ideia causava alguma estranheza. Hoje, porém, reconhecemos-lhe verdade e somos capazes de a repetir aos mais novos.
Se, por um lado, nos apercebemos e indignamos com a rápida passagem do tempo – os filhos a crescer, as velas a somarem-se no bolo – por outro, há qualquer coisa que nos impede de abrandar, como se estivéssemos permanentemente a bordo de um Alfa, incapazes de optar por um Regional.
O dia-a-dia organiza-se numa sucessão apressada de tarefas: acordar com a sensação de estar atrasado, deixar os filhos na escola precipitadamente, voar para o trabalho onde o dia desaparece em modo acelerado, sair à pressa para ir buscar os filhos demasiado tarde à escola e chegar a casa com uma série de deveres por cumprir – preparar o jantar, acompanhar os mais novos nos trabalhos da escola, tratar das tarefas domésticas, gerir horários de atividades e deslocações. Tudo isto vivido com uma sensação persistente de insuficiência e o sentimento de que o tempo não chega para o que é necessário, sobretudo para o que é verdadeiramente importante.
Nesta vivência contra o relógio, o prazer tende a ocupar um lugar residual. As obrigações acumulam-se e, com elas, os sentimentos de culpa e de incumprimento.
Sabemos, no entanto, que a perceção do tempo (psíquico) não é linear. Quanto mais marcamos a vida com experiências, novidades e significado, mais o tempo se expande na nossa memória. Pelo contrário, quanto mais vivemos em modo automático, mais se contrai e parece escapar.
Talvez seja por isso que a infância e a juventude são recordadas como períodos mais longos, onde coexistiam o tédio e a descoberta. Onde não só havia mais acontecimentos variados que se viviam intensamente, como tempo vazio – esse espaço agora evitado –, onde se podia elaborar, imaginar e transformar.
Hoje, porém, nem os mais novos parecem escapar a esta aceleração. Os tempos mortos são raros e rapidamente preenchidos por horas a fio que se esfumam em frente aos ecrãs e o vazio, necessário à elaboração psíquica, é evitado.
Talvez o tempo não tenha mudado. Talvez seja a forma como o vivemos e como nos relacionamos com ele que o torna mais acelerado.
Recuperar essa relação implica fazer escolhas, encontrar disponibilidade, arriscar e, sobretudo, a capacidade de parar. Implica resistir a um quotidiano que valoriza a aceleração e desvaloriza o pensamento e o sentir.
Talvez não seja só o tempo que está a passar mais depressa. Talvez sejamos nós que, sem nos apercebermos, estamos a perder a capacidade de o viver.
