Tempos inseguros
Nota prévia: O retrato de Vhils simboliza bem a disrupção que Marcelo constituiu. Foi um presidente irrepetível, igual a si próprio como pessoa e que correspondeu a um anseio popular de descrispação da sociedade. Ao fim de uma década, saiu com uma popularidade notável, construída antes e depois do 25 de Abril. Poucos países terão tido um Chefe de Estado tão singular e estimado.
1. É bem possível que a calma (ou autocontrolo?) do Presidente António José Seguro seja essencial nos próximos tempos. Externa e internamente, vivemos tempos perigosos. A tensão mundial atingiu níveis extremos com o ataque israelo-americano ao Irão e a reação deste sobre os vizinhos árabes, produtores de petróleo, grandes centros financeiros e investidores globais. Face à nova situação, os preços dispararam de imediato. Em simultâneo, têm-se agravado situações como a guerra da Ucrânia imposta pela Rússia, a crescente influência da China e a degradação de países africanos e latino-americanos onde temos diáspora. A Europa está envelhecida, cheia de divergências e incapacidades. Tudo com um Trump perigoso dentro e fora dos EUA. O globo está em transformação com a mudança do eixo principal para a Ásia e o aumento da desigualdade entre ricos e hiper-ricos e os outros todos, que, frustrados, se radicalizam em vários sentidos e graus. Internamente, Portugal está mal e a situação agrava-se (como sintetizou Barreto: «A três não se entendem. A dois não conseguem. A um não vence»). Na sua posse, Seguro reafirmou que tudo fará para travar o frenesim eleitoral, que Portugal precisa de um compromisso político claro e que uma rejeição do Orçamento não implica a dissolução do parlamento. A tarefa mediadora e arbitral de Seguro apresenta-se complexa. É que ao fracionamento político tripartido juntam-se desafios gigantescos. Um é o próximo fim dos apoios comunitários, muitos dos quais desperdiçámos. Isto para não falar daqueles a quem nem soubemos concorrer. Outro advém das devastadoras tempestades do inverno para as quais – está visto – não temos capacidade de reconstrução, como indicia o PTRR de que se fala. Há também uma cegueira económica que quase se limita ao turismo e mais dois ou três setores, que, aliás, estão em perigo. Tudo num quadro de crescimento prodigioso da despesa consumida por uma máquina do Estado que alimenta mais de um milhão de supostos servidores. Temos falta de visão de futuro, incapacidade de traçar objetivos, os quais nunca estão estabilizados, mesmo depois de aprovados. Andamos aos soluços e à mercê de uma burocracia que transforma o cidadão num faz-tudo online. As grandes obras decidem-se ao fim de longos anos e logo se volta a questioná-las. Umas vezes do lado da política, outras da economia. Outras ainda porque a Justiça não consegue mediar a tempo a sociedade. Nada está certo, tudo é controverso, incerto e inseguro. A classe política não tem maturidade. As crises estão sempre à espreita. Fala-se mais da sua inevitabilidade do que de planos construtivos. O parlamento é uma algazarra. O clima é de instabilidade. Ora porque o chefe do Governo tem problemas pendentes, ora porque as oposições formais o podem fazer cair, ora porque há alguém a minar, sem avançar. Como em tempos fez António Costa a Seguro. Sabendo isto tudo melhor que ninguém, o novo presidente terá de agir sem agravar a periclitante situação e a nossa autoestima, reduzida a elevar-se com vitórias desportivas. Quem conhece Seguro garante que não será por ele que as tensões se vão agravar. Mas alerta para não se contar com falta de exigência, ainda que exercida de forma recatada. Uma coisa é certa: a conjuntura em que inicia funções é a mais complexa desde Eanes, no primeiro mandato. Não há mesmo comparação com a pandemia, visto que o nosso mal económico endémico não pode ser combatido com ciência e logística. Tudo está mais dependente do bom senso do povo e dos que o conduzem. Olhando para a nossa História, não é tarefa fácil.
2. Como se não bastassem as alfinetadas de Passos, a casa de Espinho continua a ser um espinho infeccioso para Montenegro. Quando se julga sanada, a questão ressurge. Ela que esteve parcialmente na origem da queda do primeiro governo Montenegro, impondo legislativas antecipadas e uma gigantesca perda de tempo.
3. Com escândalos sucessivos, o Chega vai revelando a natureza da sua classe dirigente intermédia. Era difícil haver pior.
4. Nuno Morais Sarmento morreu vítima de cancro, aos 65 anos. Foi advogado, político e em muitos sentidos uma figura controversa, mas brilhante e determinado. Como ministro da presidência de Durão Barroso acionou, através da nomeação da administração Almerindo Marques, a fusão da RDP/RTP, dando origem à empresa de hoje. Foi uma verdadeira reforma estrutural estratégica que salvou a televisão, minimizando a rádio. Desde aí, pouco se fez de relevante nesse grupo público. Nota-se pela degradação económica, dos seus conteúdos e das audiências. Isto apesar dos sucessivos governos e administrações.
