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O poder mudou de palco

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16.02.2026

O momento mais político dos últimos tempos não aconteceu na Sala Oval (mas também), nem no Palácio de Belém (como deveria). Aconteceu num palco, num intervalo de um evento desportivo, ao longo de um espetáculo musical.

A cultura sempre foi uma arma de intervenção, mas o que assistimos no Halftime Show do Super Bowl foi mais do que um manifesto de contestação política: foi uma tomada simbólica do palco do poder pela força da arte.

Num espaço que representa, talvez como nenhum outro, a centralidade cultural dos Estados Unidos, Bad Bunny trouxe muito mais do que um espetáculo de entretenimento. Ousou cantar exclusivamente em língua espanhola e apoderar-se de um dos maiores palcos do mundo para afirmar a identidade e cultura latino-americana, num contragolpe subtil à atual política anti-imigração e ao discurso repressivo da Casa Branca.

E fê-lo não através da crítica ou do confronto direto, mas através de uma enorme celebração. Durante 13 minutos fomos convidados a entrar num ‘baile inolvidable’, onde música e cenografia nos conduziram por um universo simbólico de referências ao colonialismo e à resistência, às tradições e idiossincrasias sociais, à música e à dança, à estética e ao quotidiano popular, à gastronomia e às bebidas típicas. Evocou memória coletiva e sentido de pertença e, com isso, fez transbordar a força e o orgulho de ser latino.

O que Bad Bunny consegue não é apenas uma afirmação da latinidade dentro do contexto doméstico dos EUA (embora este seja o primeiro grande impacto), ele exala a potência da cultura latino-americana como uma nação transfronteiriça, que atravessa todo um continente e se expande globalmente. Uma aliança geoestratégica, baseada na identidade e cultura de um povo.

Esta é a expressão visível de uma América Latina em ebulição que deixou de aceitar um papel periférico na ordem internacional e passou a reivindicar voz própria. E o primeiro território dessa afirmação é a cultura. Os seus artistas ocupam lugares cimeiros dos rankings globais, criam fenómenos de bilheteira, como demonstra a tour mundial esgotadíssima de Bad Bunny, e arrecadam prémios e nomeações máximas do cinema, como vemos agora com Agente Secreto, de Kléber Mendonça Filho.

Num mundo multipolar, em que o poder já não se mede apenas por capacidade militar ou dimensão económica, o chamado soft power ganha relevância estratégica. A aptidão para seduzir, moldar perceções e criar afinidades tornou-se tão determinante quanto a diplomacia formal. Quem conquista imaginários conquista espaço político.

No artigo anterior defendi que o acordo Mercosul-União Europeia representa uma escolha estratégica neste contexto de reconfiguração global. O protagonismo cultural latino demonstra que essa aproximação não deve ser vista apenas como económica. Existe uma dimensão simbólica que prepara o terreno para novas formas de cooperação política e empresarial.

O poder está a mudar de palcos. E isso obriga-nos a olhar para mercados como o sul-americano em toda a sua complexidade, potência e riqueza e não apenas como um enorme armazém de commodities. Os holofotes estão a girar para outras latitudes.

Corramos mais rápido do que os figurantes de arbustos no final da atuação. Porque o espetáculo ainda agora começou e quem não entender isso arrisca-se a ficar fora de cena.


© SOL